Carta Mensal: Inflação: os dois lados da moeda; o risco e a oportunidade

O mundo em inflação

O conflito no leste europeu é o principal evento geopolítico em muitos anos e segue sem perspectiva de desfecho, o que mantém a apreensão sobre as repercussões nas economias globais e revela a complexidade para o cenário futuro. Além das relações comerciais, que impactam as economias que apresentam Rússia e Ucrânia como ofertantes primordiais (o combustível na Europa é um grande exemplo), também existe o efeito em todas as outras economias por meio dos preços; as commodities ficaram mais caras.

Os preços das commodities seguem em patamares elevados e a inflação continua sendo um dos importantes riscos no cenário global. A tensão mantém latente a pressão nas commodities. As principais potências estão lidando com esse desafio utilizando como resposta a política monetária, ou seja, a elevação da taxa de juros. Os Estados Unidos, por exemplo, iniciaram o processo de elevação dos juros no passo de 0,25 ponto percentual para o patamar entre 0,25% e 0,50%. A primeira elevação desde 2018.

O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, e alguns diretores não escondem o jogo e já sinalizam que, ao todo, o juro vai subir sete vezes este ano. Doses acima de 25 pontos-base não estão descartadas. Para maio, é amplamente majoritária (quase 70%) a precificação de alta de 50 pontos. As projeções do Federal Reserve são de juros ao redor de 2% em 2022 e 3% em 2023. A chance de ir além, com juros entre 2,75% e 3% até dezembro, subiu de 13% para 29% no monitoramento do CME Group.

Recentemente, esse contexto de inflação e juros nos Estados Unidos puxou o rendimento dos Treasuries mais curtos, voltando a inverter a curva. O fenômeno em que os yields dos bônus de menor prazo (2 anos) começam a valer mais do que os longos (10 anos) sempre desperta para o risco de um período recessivo à frente. Embora não pareça provável um período de depressão, é um fenômeno que passa a ser observado muito de perto, enquanto a inflação escala e exige cada vez mais da política monetária.

A leitura que os investidores estão fazendo é que o Federal Reserve está “atrás da curva”, ou seja, está atrasado. O mercado se pergunta se a economia dará conta de absorver um eventual choque de juros. Isso é o que será monitorado ao longo dos próximos meses.

Performance das bolsas mundiais em dólares – 2022

Fonte: Bloomberg

Depois de dois meses de queda, as bolsas nos EUA se recuperaram em março e figuram entre os destaques positivos no mês (S&P 500 acumulou alta de 3,58%, Dow Jones, +2,32%, e Nasdaq, +3,41%). Com isto, o índice de volatilidade da bolsa americana (S&P), o VIX, caiu bem, -25,48%. Do lado negativo, temos a bolsa da China, lidando com os lockdowns diante de mais um surto da Covid-19. O GSCI (índice de commodities) seguiu em alta firme, de 12,90%, espelhando o cenário geopolítico.

Wall Street fica atento à possibilidade de os índices de ações irem para a defensiva. O S&P 500 ainda está perto de seus recordes (só caiu 5% do high). Também se observa maior pessimismo no Dow Jones e Nasdaq, despertando o receio de que o mercado consolide neste 2° trimestre a reversão de sentimento. Em março, as bolsas em NY ainda foram bem, mas pode haver uma reviravolta, se o mercado continuar levando a sério a chance de a economia afundar.

A inflação desse choque geopolítico deverá preponderar sobre as decisões de política monetária daqui para a frente e a magnitude do ciclo de elevação dos juros sobre a perspectiva econômica. Portanto, atenção!

A “lua de mel” do câmbio no Brasil. Viva os juros e o Ibovespa.

No início de 2022, ninguém imaginava que ao fim de março discutiríamos a dificuldade de a moeda americana testar marca abaixo de R$ 4,75. O fôlego de queda foi recobrado já logo no primeiro pregão de abril, quando o dólar abriu o 2° trimestre em queda firme e tocou os R$ 4,60, ignorando a alta em escala global.

Em muitos momentos, a nossa taxa de câmbio desafia as indicações de uma elevação mais agressiva dos juros pelo Federal Reserve, na perspectiva de redução da atratividade do “carry trade”, que é a oportunidade do diferencial de juros do Brasil com outras economias desenvolvidas. A Selic projetada perto de 13% mantém o Brasil em posição muito privilegiada para disputar a liquidez.

Além dos juros convidativos ao investidor estrangeiro, o Ibovespa no contexto da inflação global de commodities é a bolsa com melhor desempenho no ano de 2022. O mercado brasileiro está se beneficiando de uma combinação de:

1) Rotação global de ações de crescimento (tecnologia) para ações de valor (commodities, bancos…). O Brasil tem uma forte exposição a commodities e bancos. No Ibovespa, o peso dessas ações é cerca de 70%;

2) Apesar do avanço do Ibovespa no 1° trimestre, ainda há espaço para retornos atraentes, visto que as ações foram muito descontadas em 2021 e o Brasil não surfou a recuperação global dos mercados acionários no último ano devido ao risco fiscal. Enquanto as principais bolsas no mundo mostram retornos num intervalo entre 10% e 40%, em dólares o Ibovespa perdeu 18%;

3) Os fluxos de outros mercados emergentes para o Brasil, com a Rússia fora da cesta e a China com recorrentes imposições regulatórias que afastam investidores;

4) O Brasil está chegando ao fim de seu ciclo de alta de juros, enquanto o Estados Unidos e outras economias centrais de mercados desenvolvidos estão apenas começando a subir os juros. Como isso influencia? Se estamos adiantados na elevação de juros, o controle da inflação pode ser mais rápido do que em outras economias. Isso pode gerar a oportunidade de corte de juros antes das economias desenvolvidas. O que é uma perspectiva positiva para a bolsa, pois corte de juros fomenta a economia.

Com uma maior entrada de dólares no país, o real vem se valorizando fortemente em relação ao dólar, atingindo seu nível mais alto desde o início da pandemia. No curto prazo, tudo indica a manutenção desse cenário. Mas tanto a recuperação da bolsa quanto a valorização do câmbio podem ser testadas em meados do 1° semestre pelo cenário político no Brasil. Eventualmente isso pode ser muito mais prejudicial aos ativos do que a alteração dos juros nas economias desenvolvidas.

A projeção para a taxa de câmbio ao fim de 2022 vem melhorando ao longo do ano; começou em R$ 5,60 e passou para R$ 5,20, pela coleta do boletim Focus. Esse movimento é natural no período de bonança, mas são muitos os eventos no cenário interno e externo que podem colocar esse desenho mais otimista à prova. E mesmo que se confirme, a mensagem é que o real pode devolver parte do ganho acumulado.

Resgatamos da memória do investidor o 2° semestre de 2021, quando o “risco fiscal” delineou as perdas dos ativos brasileiros que vinham em recuperação até meados de junho/2021. Embora os juros estivessem altos no Brasil e as ações descontadas, em momentos de incerteza o investidor estrangeiro não peca pela ousadia. Já que o debate presidencial promete ser “quente”, vale manter esses desdobramentos no radar, porque a única certeza é a volatilidade se a polarização se concretizar.

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