Carta Mensal: O 1:1 mais aguardado: Putin e Zelensky

O investidor está atento às notícias da guerra na Ucrânia e às fortes perdas dos ativos em reação ao agravamento dos conflitos no leste europeu. A decisão da União Europeia de tirar bancos russos estratégicos do Swift é seguida de novas sanções anunciadas a todo momento pelos governos e empresas aliados da Otan. A Rússia está sendo isolada financeira e comercialmente, enquanto Putin acentua os ataques contra Kiev e lança ameaças ao Ocidente. Uma corrida por segurança provoca fortes quedas das bolsas, puxa o ouro, o dólar, os títulos soberanos e pressiona as commodities, projetando um cenário de risco para a inflação e desordem da economia global.

Mercado Acionário (em US$)Acumulado em 2022*
Dow Jones-7,49%
S&P-9,18%
Nasdaq-14,90%
Ibovespa20,10%
Euro Stoxx-22,93%
FTSE 100-9,42%
CAC 40-21,34%
DAX-23,10%
IBEX 35-17,62%
FTSE MIB-23,17%
SWISS-15,81%
NIKKEI-12,39%
HANG SENG-10,22%
CSI 300-11,41%
S&P/ASX 200-3,66%
* (até 4 de março)

Desempenho dos Ativos Globais

Não só a Rússia está sendo duramente atingida. Todos os países sofrerão consequências, uns mais outros menos, mas em comum todos sentirão o efeito inflacionário das commodities. Comprometendo o setor de alimentos, o preço do trigo alcançou o maior valor em 14 anos na Bolsa de Chicago, já que a Rússia e a Ucrânia respondem juntas por 25% da produção do mundo. Os preços do milho e da soja também explodem. Consequentemente, a cadeia adjacente repassará a elevação nos custos. Sem falar no petróleo saltando para cima de US$ 110 por barril.

Os diretores dos principais Banco Centrais admitem, aos poucos, que a guerra deve impulsionar a inflação e reduzir o ritmo de crescimento. Às vésperas de iniciar o aperto monetário, Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, comentou que a situação inspira cautela e a instituição optará pela elevação gradual dos juros, ou seja, a decisão de 16 de março será pela alta de 0,25 ponto percentual, com as fed funds ficando entre 0,25% e 0,50%.

Aqui vai um alerta! A parcimônia do Federal Reserve no início do ciclo não significa que em algum momento desistirá de apertar o passo. A inflação de 7,5% não é reflexo apenas dos preços de energia e alimentação com o choque de oferta. O consumo de bens duráveis e serviços reflete a pressão de demanda típica de uma economia em recuperação. Para não ficar atrás da curva, há chance de que recorram a altas de 0,50 ponto percentual em alguma reunião, afinal os dados econômicos estão bons e dão poucos sinais de alívio até o meio do ano. Sem esquecer ainda do início do processo de redução do balanço de ativos, que pode acontecer ao fim do semestre.

No tocante à inflação global, não há perspectiva para sua reversão no curto prazo. As incertezas acerca da normalização da cadeia de suprimentos foram acentuadas pela nebulosidade imposta pelo conflito intensificado no leste europeu. Em resumo, a situação exigirá resposta da política monetária e dos bancos centrais, mantendo mais volátil o cenário para os ativos de riscos.

No apelo por segurança, o ouro (US$ 1.943,80) ampliou a presença na carteira dos investidores e, dependendo dos desdobramentos da crise, comenta-se que o metal possa superar a marca de US$ 2 mil. A insegurança do conflito, que ninguém sabe onde vai terminar, intensificou ontem a procura pelos Treasuries, considerados os ativos mais seguros do mundo, e derrubou os yields dos títulos aos piores níveis em um mês.

O Brasil está surfando a onda das commodities. Mas é necessário tomar cuidado para não levarmos um caldo!

A escalada dos preços das commodities continua representando um convite para o capital especulativo investir no Brasil e, de quebra, ainda reforça o cenário de Selic próxima de 13%. Mesmo diante do cenário muito particular do mercado brasileiro, não é improvável que, apesar da guerra, o Ibovespa continue subindo. No câmbio, não é segredo que o fluxo especulativo levou o suporte de R$ 5 a ser desafiado.

Até quando a sensação de Suíça vai durar é muito difícil de responder. No entanto, alguns fatores podem alterar esse ritmo: 1) Federal Reserve com aceleração na elevação de juros; 2) Risco Fiscal com governo utilizando o aumento pontual das receitas para combater a inflação dos combustíveis ou maiores benesses fiscais devido ao ano eleitoral; e 3) Cenário Político com as precificações do cenário da eleição presidencial a partir do segundo trimestre.

Aqui vai um assunto que será relevante em março e pode mexer no mercado, a depender do encaminhamento! Com o petróleo acima dos US$ 100, refletindo o risco de uma oferta ainda mais apertada com a guerra da Rússia, e há pouco mais de 50 dias sem ajustar os combustíveis, o preço dos combustíveis será “o assunto” do Executivo, Legislativo e Petrobras.

A diferença entre os preços internos e os externos mais do que dobrou. Cálculos de analistas do Valor Econômico indicam que a defasagem na gasolina subiu para 24% ou R$ 0,80/litro. No diesel, chegou a 27% ou R$ 1 por litro. A expectativa é que a estatal anuncie em breve um aumento parcial nos preços dos combustíveis, em torno de 9% para gasolina na bomba e de 17% para o diesel.

Combater a inflação com desequilíbrio fiscal nunca é uma boa solução. Se a situação dos combustíveis caminhar para a extravagância, um paliativo extrapolar para um pacotão de bondades pode acrescentar prêmio da curva de juros.

Paulo Guedes não quer encerrar o ano com zero na matéria de crescimento econômico!

As restrições de oferta e o aumento da inflação são as principais razões por trás da frustração com o desempenho da atividade no período recente. Esses são os pilares da estagflação (cenário de inflação elevada sem crescimento econômico) que é projetada pelos analistas para 2022.

As dúvidas acerca da normalização no fornecimento de insumos e a elevação dos custos – com energia e transporte – continuam a prejudicar o setor industrial. Por sua vez, a inflação persistentemente alta limita o poder de consumo das famílias e, dessa forma, explica a expectativa de perda de ímpeto do setor de serviços ao longo do ano. Qualquer solavanco repentino, na agropecuária, intensificará ainda uma maior contração.

A despeito dos efeitos negativos, os investimentos em infraestrutura na gestão do ministro Tarcísio de Freitas, somada ao aumento das transferências de renda pelo Governo Federal, são as apostas do ministro Paulo Guedes para sustentar a economia neste ano.

As reformas estruturantes estão seguindo seu curso: telecomunicações, gás natural, petróleo, saneamento e cabotagem. Guedes disse que o Brasil tem R$ 828 bilhões de investimentos contratados para os próximos anos e atrairá mais R$ 300 bilhões ainda neste governo.

Esse ganho não sairá na fotografia do PIB de 2022, mas poderá ser revelado na película dos próximos anos. E mais: esse movimento pode ainda impulsionar a capacidade de crescimento da base no longo prazo. Ou seja, elevar a projeção para o crescimento estrutural do país ao redor de 1,5%.

O que esperar pela frente

Deveremos permanecer com muita volatilidade nos mercados, locais e globais. Portanto, segue sendo mandatório ter cautela.

Balancear os portfólios por meio de adição de ativos em outras geografias, e em outras moedas, é importante e deve ser um processo feito ao longo do tempo. Investir em ativos de longo prazo tende a gerar maior valor agregado e diminuir a volatilidade das carteiras. Com um ambiente de alta de inflação, ainda com preocupações com relação à Covid-19 e agora com o conflito geopolítico, a recomendação é ainda maior por ativos de menor risco (Beta mais baixo) e fazê-lo com parcimônia. 

Em horizontes de investimento mais alongados, preferencialmente de três a cinco anos, o retorno dos portfólios será determinado principalmente pela capacidade de se fazer boas escolhas nos ativos das mais diversas classes.

“Você sabe qual é o maior risco que o investidor está exposto em momentos de crise? A precipitação de uma decisão!”

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