Carta Mensal: Bolsa – Fotografia não é filme!

Olhando para a fotografia do mercado financeiro ao fim de janeiro, até esquecemos que 2022 começou com investidores apreensivos diante das polêmicas envolvendo o Orçamento Público, especificamente o reajuste salarial apenas a policiais federais e demandas de recursos eleitoreiros pelos parlamentares. Pois é, naquele início de mês parecia que não se confirmaria a profecia da janela de oportunidade para recuperação dos ativos domésticos pelo esvaziamento das notícias políticas.

No News is Good News! Pois é, no Brasil, a ausência de notícias parece ser  uma boa notícia. A possível manifestação dos servidores públicos devido à insatisfação com o reajuste exclusivo para policiais federais não aconteceu na magnitude esperada, o que trouxe um alívio, além do fato de o governo ter recuado e deixado o assunto em suspenso. Naquele momento, os assuntos políticos e fiscais saíram de férias com o Congresso, o que beneficiou o ambiente do mercado financeiro.

O Ibovespa foi a bolsa que mais avançou e o real foi uma das moedas que mais apreciou frente ao dólar.

Fonte: XP Investimentos

Em janeiro, o mercado global sofreu com a mudança de postura do Federal Reserve (Fed – abreviação para Banco Central dos Estados Unidos), inclinada ao aperto monetário. Foi um dos piores inícios de ano para o mercado de ações internacional, reflexo da abertura da curva de juros nos Estados Unidos, que precificou cinco elevações nas taxas em 2022. Em conjunto, há apreensão do investidor com a redução do balanço patrimonial do Fed, que vale um parágrafo para entender o que representa, pois já impacta o ambiente de investimentos.

No ápice da crise, o Fed comprou títulos públicos e privados com o objetivo de aumentar a oferta de dinheiro que circula na economia. Os indicadores econômicos mostraram recuperação, a inflação acelerou, reduzindo o ritmo de compras do ativo em novembro. Em março, o programa acaba e os investidores aguardam pistas sobre os próximos passos. Afinal, os ativos do Federal Reserve saíram de aproximadamente US$ 4 trilhões para US$ 9 trilhões.

Há diferença entre os efeitos de alta de juro e redução do balanço, com o primeiro impactando a taxa de câmbio (fortalecimento do dólar) e a parte curta da curva de juro, enquanto o segundo abala o prêmio a termo da curva em seus vértices mais longos, mudando a inclinação da curva e o movimento de preço de outros mercados (como o acionário).

As consequências são: 1) Um mercado de títulos mais pressionado com a abertura das curvas de juros; e 2) Uma leitura de que o mercado de ações demanda maior seletividade (empresas de qualidade, que exibem estabilidade na geração de receitas, pagadoras de dividendos…).

Contra o fluxo não há argumento! Afinal, para quem tem dólar o Brasil está em promoção.

A busca por ativos descontados, com exposição a commodities e de valor, impulsionou com forte fluxo de capital o Ibovespa. A falta de agenda doméstica (o tal do “No News is Good News”) sustentou esse movimento ao longo de todo o mês de janeiro. No curto prazo, a janela favorável ao Real está sendo explicada pelo fluxo estrangeiro buscando ativos atrelados às commodities, além do fluxo comercial relevante.

O primeiro trimestre é menos contaminado pela agenda eleitoral, o que manteria o ambiente favorável no mercado financeiro. No entanto, existem alguns temas que podem atrapalhar ou até acabar com essa euforia, a maioria deles esbarra na percepção do risco fiscal (aquele relacionado às contas públicas).

Os desafios das contas públicas voltarão aos holofotes com a retomada dos trabalhos no Congresso. A prova está sendo a discussão dos combustíveis na esfera dos impostos. Aliás, o Setor Público consolidado (Governo Central, Estados e Municípios e Estatais) registrou superávit primário de R$ 64,7 bilhões em 2021. O resultado foi entregue pelos Estados e municípios que alcançaram um superávit primário de R$ 97,7 bilhões, suficiente para cobrir o déficit de R$ 35,9 bilhões do Governo Central.

O resultado primário dos governos regionais foi fortalecido sobretudo pelo aumento da arrecadação de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) e das transferências de impostos pelo governo federal — por sua vez puxadas pela aceleração da inflação e pela alta de preços de commodities e de energia. A arrecadação com o ICMS bateu recorde e atingiu R$ 637 bilhões em 2021, com crescimento de 22,6% em relação a 2020.

Grande parte desse ICMS arrecadado é proveniente do combustível. Em um ano de atividade econômica fraca, que vai comprometer a arrecadação, é evidente que a discussão vai render e pode arranhar os ativos domésticos.

A palavra de ordem continua sendo cautela. Alguns desafios fiscais irão elevar a percepção de risco dos investidores antes mesmo de o mercado focar na temática eleitoral.

Oportunidades de Investimentos

Cautela é mandatório

Os mercados, locais e globais devem permanecer com muita volatilidade. Portanto, é necessário cautela.

Com a decisão do Copom em fevereiro, a Selic avança para 10,75% a.a. – primeira vez desde julho de 2017 que a taxa volta ao patamar dos dois dígitos. O que isso implica para o investidor é que voltamos a ver retornos mensais próximos de 1% (atualmente 0,85% a.m.), com um mercado de Renda Fixa, em especial os fundos de crédito privado, cada vez mais atraente.

Porém, aproveitar a volatilidade do mercado (cenário em que surgem também as oportunidades), e assumir um pouco de risco nos investimentos, tornará nosso portfólio muito mais rentável ao longo dos anos.

O balanceamento por meio da adição de ativos em outras geografias, e em outras moedas, é uma estratégia a ser perseguida – este tipo de movimento ajuda a aumentar os ganhos no longo prazo e, muitas vezes, com menos volatilidade para as carteiras. Com ambiente de alta de inflação e ainda com preocupações com relação à Covid-19, a recomendação é por ativos de menor risco (Beta mais baixo) e alocar com parcimônia.

Portanto, em horizontes de investimento mais alongados, preferencialmente de três a cinco anos, o retorno dos portfólios será determinado principalmente pela capacidade de fazer boas escolhas nos ativos das mais diversas classes.

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