“Semana Veedha – Brasil com inflação de 5,5% em 2022? Vamos entender os pressupostos!”

O mundo está inflacionado e os investidores não esperam uma mudança estrutural nos preços ao consumidor nos curto e médio prazos. O argumento de “transitoriedade” da pressão inflacionária, como a alta nos preços de energia e os gargalos de oferta, não convence mais!

O motivo? Porque além das questões óbvias pertinentes à nossa economia, também somos influenciados pelo cenário global. Isso mesmo. O Brasil importa a inflação das economias desenvolvidas, principalmente dos parceiros comerciais. Importamos bens finais e intermediários, que são necessários para a produção de bens industrializados e por isso sentimos o peso ao longo da pandemia. Além disso, as commodities são negociadas internacionalmente, em dólar.

Inflação ao Consumidor (Anual%)


Fonte : Bloomberg

Então, dado o contexto global, vamos abordar os pressupostos da projeção de uma desaceleração da inflação no Brasil, de 10,06% em 2021 para 5,5% em 2022, com os riscos de uma surpresa inflacionária. 

  1. Elevação da taxa de juros: a Selic passou de 2% para 9,25% entre março e dezembro de 2021. A expectativa para 2022 está entre 11,5% e 12% ao fim do 1° trimestre. Esse aperto monetário deve promover um arrefecimento relevante na demanda dos consumidores e contribuir para algumas categorias de preços não avançarem tanto, como serviços, e outras desacelerarem, como preços industriais.
    Risco > Apesar da política monetária mais restritiva, os reajustes mais pesados do início deste ano são baseados na inflação passada (IGP-M de 2021 registrou 17,78%); essa é a razão pela qual a inflação de serviços seguirá avançando, de 4,7% para 6% entre 2021 e 2022.
  2. Normalização das cadeias de suprimento: a desaceleração na alta dos preços industriais, além da lentidão da demanda, tem como pressuposto a normalização no abastecimento dos insumos, ou seja: o choque de oferta ficou no passado. A expectativa de inflação dos bens industrializados é de desaceleração de 11,3% em 2021 para 5% em 2022.
    Risco > É necessário acompanhar a disseminação de casos de coronavírus na Ásia e o consequente desarranjo das cadeias produtivas. Uma política altamente reativa a aumento de casos deve inevitavelmente levar a novas restrições, podendo contaminar linhas de produção e de transporte.
  3. Desaceleração no preço de alimentação em domicílio: Após alta de 8,24% em 2021, a expectativa é de 4% em 2022. No entanto, a projeção estava ancorada na estimativa de safras recordes de grãos, arrefecimento nos preços de commodities agrícolas e condições climáticas melhores.
    Risco > 1)
    A estiagem na região Sul do país e o prejuízo ao setor agropecuário. A principal preocupação do governo catarinense é com a safra de milho. Além dos preços dos grãos, uma colheita menor deve afetar diretamente as cadeias produtivas de carne (especialmente frango e suíno) e leite. Há estimativas de uma redução de até 50% da produção de grãos no Sul do país.
    Risco > 2) Preocupações com abastecimento e altos custos de fertilizantes e defensivos agrícolas.
  4. Preço dos combustíveis: A projeção de aumento do preço da gasolina está ao redor de 5% em 2022, após 47,7% em 2021. A inflação bem menor tem como premissa que os preços correntes já refletem o petróleo e o câmbio em patamares elevados.
    Risco > Aumento do preço do petróleo, saindo do patamar de US$ 75 para próximo de US$ 90/barril, pressiona a Petrobras por mais uma alta nos valores dos combustíveis para o mercado interno.
  5. Taxa de câmbio: A projeção para o dólar é de R$ 5,60. Muitos preços são influenciados pelo câmbio, portanto, pressupor sua manutenção corrobora com arrefecimento de custos importantes.
    Risco > É inegável o potencial de desvalorização nos próximos meses com elevação de juros nos Estados Unidos e disputa presidencial no Brasil. Se isso acontecer, o câmbio não deve colaborar para a manutenção ou arrefecimento dos preços dos alimentos, nem dos combustíveis.
  6. Deflação em energia elétrica: É estimado que as contas de luz cairão, em média, 5% este ano. Em maio, deixa de vigorar o adicional de escassez hídrica e retorna a bandeira vermelha 1. Se a recomposição dos reservatórios continuar no ritmo atual, a queda pode ser ainda maior.
    Risco > Apesar de não parece ser o cenário mais provável, alguma frustração em relação ao nível dos reservatórios pode comprometer a deflação projetada.

IPCA e os vilões da inflação (Acumulado em 12 meses – %)


Fonte : IBGE

O balanço de riscos sugere que há possibilidade de uma surpresa inflacionária, ou seja, um IPCA acima de 5,5%. Em 2021, os preços administrados (aqueles que são regulados pela oferta e estabelecidos por contratos) registraram 16,9% em 2021, e foram os grandes vilões do IPCA. Para 2022, a expectativa é 5,1%, por conta principalmente da deflação em energia elétrica, que depende da continuação, em ritmo atual, da recomposição dos reservatórios. O maior risco parece estar na inflação da gasolina, pois as projeções não trabalham com petróleo próximo de US$ 100/barril e não consideram um câmbio acima de R$5,70. Por que isso é importante ao investidor? O ideal é que a sua carteira de investimentos, ao menos, assegure o seu poder de compra ao longo do tempo, pois, ao falarmos em rentabilidade, a inflação é um parâmetro. Então, estar antenado ao cenário inflacionário ajuda a mitigar erros nas decisões que envolvem a conservação do seu patrimônio. Converse com seu assessor de investimentos e verifique se a sua carteira está adequada aos seus objetivos diante do cenário econômico!

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