Carta Mensal – Investidor, o que esperar quando você está esperando?

O título remete ao livro que aborda os desafios da paternidade iminente na vida de cinco casais; as dúvidas, frustrações e preocupações de quem espera o fim da gestação. Parece perfeita a analogia com a vida do investidor brasileiro, que no próximo ano ficará em compasso de espera diante da eleição presidencial. 

Os desafios ligados à economia brasileira viraram de cabeça para baixo a vida do investidor. Recentemente, a nova variante do coronavírus (Ômicron) adicionou incertezas, uma vez que o cenário internacional não era visto como um potencial componente de risco. Ainda que já existisse alguma preocupação com o quadro inflacionário e a possibilidade de antecipação da elevação dos juros nos Estados Unidos, perseverava uma avaliação de possibilidade construtiva em razão do crescimento econômico das principais economias. 

Internamente, desde agosto assistimos à novela das contas públicas, especialmente em virtude das tentativas do governo de implementar o Auxílio Brasil. Na busca por alternativas para ampliar gastos com um programa social sem espaço no Orçamento para 2022 dentro do teto de gastos, o governo tentou emplacar a reforma tributária sobre a renda, no que acabou fracassando. Depois enxergou no problema dos precatórios (dívidas da União determinadas pelo Judiciário) uma oportunidade de encontrar uma solução para colocar o programa assistencialista em prática. 

Em qual capítulo estamos? A promulgação da PEC dos Precatórios está em jogo. Como os senadores alteraram o texto, o regimento legislativo manda que esse trecho também volte para a Câmara. O governo articulava o fatiamento da proposta para garantir o total do espaço aberto (R$ 106 bilhões), mas apenas o texto que mudou o cálculo do teto (R$ 62,2 bilhões) está avalizado pelas duas Casas e pode ser promulgado. Já o subteto para os precatórios, que abre uma folga de R$ 43,8 bilhões, não está ainda definido. Se for encaminhado para votação novamente pelos deputados, pode comprometer o pagamento do Auxílio Brasil de R$ 400 ainda este ano.

Antes de encerrar o ano legislativo em 17 de dezembro, é primordial para a manutenção de um ambiente moderado no mercado financeiro doméstico: 1) a resolução sobre a promulgação dos precatórios; e 2) a aprovação do Orçamento 2022 no Congresso.

Vamos falar sobre o cenário internacional. A preocupação crescente com uma nova variante da covid e vários anúncios de lockdowns pela Europa fizeram os juros devolverem a alta, provocando também uma realização nos principais índices acionários. 

A possibilidade de um tapering (redução do programa de estímulos) mais acelerado nos Estados Unidos e uma elevação dos juros antes do previsto trouxeram alguma parcimônia aos ativos mais arriscados em novembro, mas está longe de comprometer o ímpeto das principais bolsas em 2021.

Rentabilidade dos Títulos de 10 anos (%)

Fonte: Bloomberg

Alguns dias são mais delicados para a renda variável. Recentemente aumentou a cautela com o posicionamento “hawkish” (orientado ao aperto monetário) do Federal Reserve. No entanto, o rendimento dos títulos longos das principais economias tem oscilado no mesmo intervalo ao longo de 2021. Isso porque, ainda que os Estados Unidos antecipem a elevação dos juros, persiste a crença de uma normalização bem gradual na política monetária. 

O que esperar das bolsas internacionais enquanto esperamos a alteração dos juros nos Estados Unidos?

A situação de elevação dos juros repercute, principalmente, na performance dos papéis de tecnologia. Mas cuidado com os movimentos de manada e análises de padaria. A rotação de setores tem limites também. Nestes momentos, empresas com bons modelos de negócio podem ficar baratas.

As empresas de tecnologia queimam caixa e contratam investimento para acelerar o desenvolvimento. Para elas, o impacto da alta de juros é maior sobre setores em que a performance dos ativos só ocorrerá no longo prazo.

O setor de tecnologia foi o grande vencedor da bolsa de valores em 2020, com o índice Nasdaq avançando mais de 40% no período e diversas empresas crescendo até quatro dígitos em valor de mercado após o crash causado pela pandemia em março. Ao que tudo indica, o retorno em 2021 será acima de 20% e, ainda que as empresas de tecnologia pedalem nesse cenário de juros e tenham menos espaço para entregar rentabilidade, falar em desvalorização em 2022 é prematuro.

Note que, ao fim de novembro, justamente a Nasdaq sustentou ganho no cenário de incertezas geradas pela nova variante. As empresas de tecnologia são mais resilientes a possíveis lockdowns e tendem a se beneficiar, enquanto outros setores cíclicos seriam penalizados. 

Na Ásia, outros temas ganharam proporção ao longo do segundo semestre, aumentando a divergência sobre ser este um bom momento para apostar no país asiático. Em 2022, alguns assuntos mantêm acesa a luz amarela dos investidores:

1. O receio se baseia nas interferências do governo chinês no mercado. As empresas de tecnologia são exemplos da “falta de liberdade econômica”; são setores muito impactados pela política, o que não é tão comum no ocidente. Há cautela com as empresas chinesas, pois parece que, quando atingem um determinado ponto, o governo passa a enxergá-las como um risco político.

2. Monitoramento dos preços. Os controles sobre os preços de minério de ferro, cobre e outras commodities foram fortalecidos. Assim como limitação nas produções de carvão e monitoramento dos preços de petróleo, gás e soja.

3. A construção civil era vista como bastante promissora, por exemplo. Porém, após a crise da Evergrande, parece que o mercado deve demorar para se recuperar.

O que esperar do Brasil? A política seguirá protagonizando o noticiário. No melhor cenário, esperamos superar o capítulo do Orçamento para 2022. Dessa forma, o “risco fiscal” vai dar espaço ao “risco eleição”.

A XP Investimento divulgou em um estudo que, em períodos de pré e pós-eleição, o preço das ações não parece seguir nenhuma regra. Basicamente, a conclusão é que a “democracia brasileira é jovem e a amostra de períodos eleitorais em que as políticas e o mercado eram similares ao atual são pequenas. Além disso, o mercado brasileiro é sensível aos movimentos do mercado global, como a volatilidade cambial, períodos de bonanças e crises econômicas globais, e mudanças nos preços das commodities, como fatores que podem afetar as ações brasileiras mais do que as incertezas políticas domésticas”.

Posto isso, a única conclusão é que será um ano com volatilidade. Para o Ibovespa, o noticiário sobre as pesquisas eleitorais, em conjunto com os desdobramentos de um cenário externo em momento de elevação dos juros, indica que 2022 será desafiador. Por isso, embora a bolsa brasileira continue barata (Preço/Lucro, excluindo commodities, em relação à Renda Fixa e no relativo contra outras Bolsas), não há garantia de retornos positivos. As oportunidades são para os investidores com paciência e visão de longo prazo, que enxergam esses momentos de turbulência como os melhores para investir.

PIB fraco e inflação forte revelam o desafio para condução da política monetária.

A inflação ao consumidor segue rodando muito acima da trajetória de metas e ainda há pressões no atacado que serão repassadas. Além disso, a redução da credibilidade fiscal no Brasil elevou as incertezas e gerou as consequências da dominância fiscal (quando a elevação dos juros se torna ineficaz para controlar o cenário inflacionário devido às desconfianças quanto às contas públicas), desvalorização do câmbio e mais inflação.  

Fonte: Bloomberg / Elaboração: Veedha Investimentos

Em dezembro, acompanharemos como o governo acomodará os gastos adicionais programados para 2022, que dependem de dois eventos: 1) PEC dos precatórios e; 2) Conclusão do Orçamento para 2022. Independentemente do desfecho destes temas, os prêmios de risco seguirão, em 2022, as expectativas de inflação, e devem continuar pressionados adiante, especialmente em meio uma campanha eleitoral em que o tema dos gastos públicos deve continuar no centro das discussões.

A Selic caminhará para os dois dígitos; projetamos 11,25% ao fim do 1° trimestre de 2022. A avaliação dos economistas é que, dadas as circunstâncias da economia brasileira, em nível global e comparativamente na situação de uma economia emergente, a taxa de juros real (que desconta a inflação) deveria caminhar ao redor de 4%. O IPCA de 11% em 2021 e de 6% em 2022, em conjunto com os juros em dois dígitos, pelo menos até o fim de 2022, mantêm os investidores interessados em investimentos em renda fixa. 

Seu portfólio está alinhado?

O último mês do ano chegou e faz parte do processo olhar para o retrovisor para avaliar todas nossas atitudes e projetar um novo ano, semestre ou ciclo, e isso inclui analisar a carteira de investimentos e quais os possíveis ajustes a serem feitos.

O ano de 2021 foi um verdadeiro teste de alinhamento, no qual investidores de diferentes perfis entenderam a importância de ter a carteira alocada de acordo com a sua tolerância a risco. Foi e ainda está sendo um teste de autoconhecimento financeiro.


As perguntas que devemos sempre nos fazer são duas:
I. quanto eu preciso ter de rentabilidade no longo prazo;
II. Quanto eu suporto de volatilidade.

Saber a sua necessidade de retorno trará mais segurança no processo de escolha dos ativos financeiros. Entender se você consegue suportar a busca por esse retorno determinado, trará disciplina e paciência para sustentar a escolha.
Nesse ambiente de incertezas, o maior desafio é encontrar o equilíbrio e ter a sua identidade pessoal refletida em seu portfolio de investimentos. Esse é o alinhamento que sugerimos. “Você se vê em seus investimentos? Eles condizem com sua tolerância?”.
O ideal é ajustar o grau de risco para ter conforto no curto prazo, mesmo que ele não entregue o retorno esperado nesse prazo. Mas, cuidado com a mão, porque se zerar a exposição, dificilmente permitirá os retornos satisfatórios quando as oportunidades surgirem.

Quanto ao contexto vivido atualmente volatilidade alta dos mercados não da sinais de arrefecimento, com a Covid-19 e suas variantes sendo um “fantasma” que insiste em não nos deixar 100% em paz, exigindo cautela nas tomadas de decisões. No cenário doméstico, inflação alta, situação fiscal do Brasil pressionada e um ano eleitoral a frente, demonstram os desafios para o investidor brasileiro que deve olhar para a diversificação geográfica como uma oportunidade de potencializar o retorno da sua carteira, mesmo sabendo que todas as regiões do globo passam por seus desafios em um mundo que ainda tenta se reorganizar dos efeitos da pandemia.

Nesse ponto, vale ressaltar que quanto maior o diferencial de juros entre o Brasil e os demais países, mais atrativos ficam os investimentos internacionais com hedge cambial. Por isso, seguimos apreciando uma parcela de alocação global em fundos internacionais, tanto em renda fixa quanto em renda variável, ajustado ao perfil de investidor.

Ao investidor que vê os grandes desafios que existem na hora de construir ou rebalancear o seu portfólio ao longo do tempo, conte sempre com nosso apoio para caminhar nesses cenários de turbulência, e ao sentir qualquer desconforto em relação a variação de seu portfólio, vale se perguntar se não se trata de uma questão de alinhamento com a sua identidade.

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