“Carta Mensal – “Brasil no sinal amarelo freia ou acelera”

Não faltam bons motivos para o otimismo com a economia brasileira. No entanto, basta um único motivo para ir por “água abaixo” toda a euforia: deterioração do cenário político. O sinal amarelo piscante é o mais apropriado quando falamos de Brasil.

Conforme 2022 se aproxima, uma terceira via para a eleição presidencial parece um caminho incerto. Tem chão até lá, mas as peças começaram a tomar posição e se firmar. As pesquisas, ainda prematuras, desenham um quadro que aponta para um duopólio entre Lula e Bolsonaro, o que deixa estreito o caminho para desafiantes. Ao que tudo indica, 2022 virá com a decantação das múltiplas candidaturas que marcaram as eleições passadas, da direita à esquerda.

Nem otimista, nem pessimista. Parcimônia é um comportamento adequado quando identificamos incertezas relevantes no médio prazo, que não estão restritas ao Brasil e são estendidas ao quadro da política econômica global. Por isso, achamos necessário trazer à luz essas questões aos clientes.

Cenário Internacional: a economia global exerce papel preponderante no cenário doméstico.

A maior economia do mundo, os Estados Unidos, mantém a política monetária estimulativa, com a taxa de juros próxima de zero em conjunto com a flexibilização quantitativa. Sobre esse último instrumento, o Federal Reserve compra títulos do governo, bancos e empresas, assim acrescenta dinheiro novo à economia. Especificamente com os títulos públicos, o objetivo é desestimular a aplicação nesses ativos considerados livre de risco, deixando o recurso dos investidores em circulação, estimulando o consumo ou mesmo a busca por rentabilidade em produtos mais arriscados, que são as ações.

Item 1 do Radar de Riscos: O cenário de ampla liquidez global, por meio de contínuo apoio monetário do Federal Reserve, pode mudar no médio prazo. Isso afeta a precificação dos ativos nos EUA e desencadeia efeitos sobre a precificação de ativos no Brasil.

Para a pergunta “quando o Federal Reserve irá alterar os juros ou reduzir o programa de ativos?”, a resposta é um frustrante “depende!”. Mas o consolo é que sabemos o que monitorar para auferir o momento em que o Federal Reserve, ou qualquer Banco Central, decidirá mexer nos juros, ou seja, a evolução da inflação.

Os indicadores econômicos mostraram uma aceleração da economia norte-americana, que pode crescer 7% em 2021. Dados fortes geram expectativa de mais inflação com a retomada econômica, consequentemente elevando o rendimento dos títulos norte-americanos (Treasuries) pelo fato de os investidores acreditarem que o Federal Reserve será forçado a elevar os juros mais cedo. A elevação na remuneração no ativo considerado livre de risco (Treasuries) atrai fluxo para os EUA e aprecia o dólar globalmente.  

O Federal Reserve indicou que a primeira elevação dos juros acontecerá em 2023. A evolução positiva dos dados econômicos nos EUA sugere que a instituição possa antecipar a subida dos juros. No entanto, alertamos que a política fiscal é determinante. A expansão do orçamento dos Estados Unidos pode antecipar esse evento nos juros.

No 2° semestre de 2020, com as políticas econômicas estimulativas a pleno vapor, os especialistas destacaram o quão destoantes eram a precificação do mercado financeiro e a realidade da economia real. Agora, a leitura da situação corrente é positiva e transborda para as expectativas. Entretanto, devemos ter alguma parcimônia com o futuro, pois grande parte dos indicadores foram beneficiados pelas medidas fiscais de estímulo ao consumo, que começam a se diluir nos próximos meses. A extensão do seguro-desemprego, por exemplo, vai até setembro.

A política fiscal fomenta a economia real, pois coloca o dinheiro na mão do cidadão, e isso gera pressão inflacionária. Se Biden for capaz de manter uma política fiscal arrojada, isso vai exigir mais austeridade da política monetária. Vamos acompanhar a efetivação do pacote de infraestrutura, de US$ 1,2 trilhão.

Explicamos ao leitor que o Federal Reserve não deve promover um movimento brutal e inesperado. O primeiro gesto de “fechar a torneira” será com a divulgação de um cronograma de redução do programa de ativos, que poderá acontecer ao longo do segundo semestre e implementado no início do próximo ano. Esse será um passo inevitável, e por isso o dólar vem se mantendo apreciado globalmente.

A retomada econômica global é altamente desigual e incompleta e as perspectivas continuam incertas. Esse cenário pode causar dificuldades para os mercados emergentes em particular, em razão de um endurecimento das condições financeiras globais, enquanto as economias desenvolvidas têm uma transição menos acidentada.

Cenário Interno: no Brasil, as condições econômicas para voo não são suficientes para garantir um ambiente positivo aos ativos domésticos se houver instabilidade política ou problemas na condução do orçamento público. 

A expansão econômica mais forte no Brasil, já que a segunda onda de Covid não teve impacto significativo, e o processo de vacinação acelerado são fatores que têm dado impulso à economia brasileira. Onde moram os riscos?

Item 2 do Radar de Riscos: a manutenção da valorização do Real contra o Dólar. O 3° trimestre pode terminar de um jeito diferente do que começou!

O fluxo cambial pode ajudar para a queda do dólar ante o real durante julho. Há expectativas de continuidade de ingressos de investidores estrangeiros rumo à Bolsa e renda fixa, em contexto de novas ofertas de ações (IPO) e das apostas em alta firme da taxa Selic até o fim deste ano, enquanto EUA e Europa sinalizam manutenção das políticas de estímulo à economia.

Ao mesmo tempo, notícias negativas do lado político mantêm nosso cenário instável; ainda há incerteza entre um contexto de reformas e um de populismo. Isso mantém a taxa de câmbio acima do patamar considerado o preço justo, ao redor de R$/US$ 4,50.

No radar local ficam as investigações da CPI da Covid e as denúncias de corrupção na compra de vacinas. O risco político do governo Bolsonaro, após acusações de vantagens na compra de vacinas contra o coronavírus, limita a valorização da taxa de câmbio. Há um prêmio de risco pelos desdobramentos que esse evento pode acarretar ao longo do semestre. Não necessariamente por um impeachment, mas pela ação dos políticos em desgastar a imagem do atual governo olhando as estatísticas pré-eleição.

Item 3 do Radar de Riscos: PIB de 5% em 2021, mas com previsão de 2% em 2022.

O cenário inflacionário é desafiador, consequentemente o Banco Central endureceu o discurso quanto à política monetária. Em junho, as commodities seguiram em alta, indicando que a pressão no atacado pode continuar, a despeito da apreciação recente da taxa de câmbio. Desta forma, mesmo com a descompressão recente dos ativos financeiros brasileiros, não há expectativa de alívio na inflação ao consumidor nos próximos meses. A normalização nas cadeias globais de fornecimento deve acontecer na virada do ano.

As projeções da Veedha para IPCA 2021 e 2022 são 6,5% e 4%, respectivamente, assumindo projeções de Selic em 6,5% e 7,5% nos respectivos anos.

Considerando os efeitos defasados das condições monetárias mais apertadas e os patamares ainda elevados da taxa de desemprego (atualmente 14,7% – segundo a PNAD Contínua do IBGE), projetamos uma acomodação do ritmo de crescimento econômico para 2,0%.

Item 4 do Radar de Riscos: o risco para a frente pode voltar a ser o fiscal. Afinal, as reformas ainda não foram concretizadas.

Prepondera a avaliação de que a dívida bruta em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) pode terminar o ano pouco acima de 80%, na medida em que a arrecadação está surpreendendo devido à recuperação da economia, o que ajuda a melhorar o quadro fiscal no curto prazo.

No entanto, o risco estrutural permanece no radar. Para 2022, a dívida já deve retomar sua tendência ascendente, por causa da alta da taxa de juros, da esperada desaceleração do PIB nominal e do aumento dos gastos primários (indexados à inflação passada).

Se a proximidade do ciclo eleitoral elevar a pressão por gastos populistas ou acima do teto constitucional e isso coincidir com uma mudança na postura da política monetária nos países desenvolvidos, podemos assistir à volta da volatilidade aos mercados.

O cenário econômico para 2022 é incerto! Por isso, a provocação no título desse texto: “No sinal amarelo, acelera ou freia?” Em meio às oportunidades de ganhos na Bolsa e à projeção de 145 mil pontos, é importante você consultar o seu assessor e entender quais ações são recomendadas aos seus objetivos, se são de curto ou longo prazo.

Oportunidades de Investimento

Junho foi um mês de retornos positivos, porém baixos para as diversas classes de ativos no Brasil. O grande destaque positivo é o próprio Real, se apreciando quase 5% contra o Dólar americano.

A variação do dólar gera impactos diretos e indiretos na nossa seleção de ativos. Levamos em conta o fato de que não só ele varia contra o real, mas também, que é muito usual que essa variação possua causas comuns com outras variações, como a dos juros brasileiros e americanos e muitas vezes com a das próprias bolsas brasileira e americana.

Levando em conta esta estrutura de relações, chamada de correlação, recomendamos há algum tempo a exposição ao dólar como uma forma de seguro. Portanto, mesmo sendo detrator das nossas recomendações em Junho, seguimos confortáveis que um percentual do portfólio dos investidores siga dolarizado. Se nossas principais teses, como a posição de bolsa brasileira, forem muito mal, é esperado que este dólar se valorize, defendendo nossa seleção de ativos. O ouro, também devem ser considerados nesse cenário. Renda Variável Global segue sendo relevante nos portfólios, com foco para diversificação regional, além de também ser uma uma forma de defesa em um cenário interno adverso, se aproveita da retomada das demais economias.

There are no comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Start typing and press Enter to search

Shopping Cart