Veedha ESG – Carbono, de vilão à fonte de vida e rentabilidade.

Por: Luiz Fernando Quaglio

O Carbono é um dos elementos mais abundantes do universo. Está presente em quase tudo e todos, do corpo humano a maioria dos objetos que usamos.  Se a vida se liga ao carbono, então a sua ligação “dupla” em combinação com o oxigênio caracteriza o dióxido de carbono(CO2), que ao ser liberado através da produção de combustíveis fósseis e mudanças no uso da terra constituem importantes alterações nos estoques naturais de carbono do planeta, mudando o clima e já causando graves danos socioambientais e consequentes perdas econômicas.

Quase cinco anos após a assinatura do Acordo de Paris, a urgência da crise climática global é mais aparente do que nunca, e com essa urgência veio um movimento mais forte em direção à ação coletiva para mitigar os piores impactos das mudanças climáticas. Para limitar o aquecimento global a 1,5 °C, em linha com o Acordo de Paris, precisamos cortar os atuais níveis de emissão de gases de efeito estufa (GEE) pela metade até 2030 e reduzi-los a “NET-ZERO” até 2050. A diferença entre o aquecimento global médio de 1,5°C, 2°C ou 3°C pode parecer marginal, mas, na verdade, representam cenários muito diferentes para o futuro da humanidade. Verifica-se, por exemplo, o aumento da probabilidade 63% de um verão sem gelo no ártico (e consequente aumento dos níveis do mar), ou o aumento da probabilidade de incêndios florestais em 97%. A frequência de desastres, a sobrevivência de plantas e animais, a propagação de doenças, a estabilidade de nosso sistema climático global e – em última análise – a possibilidade da humanidade sobreviver neste planeta dependem desses poucos graus. 

Os governos nacionais não estão apenas instituindo políticas para cumprir os objetivos climáticos estabelecidos pelo Acordo de Paris, os acionistas e consumidores também estão conduzindo novas ações dentro do setor privado. Grandes e pequenas corporações estão agora estabelecendo metas ambiciosas de neutralidade de carbono. 

Nesta conjuntura de transição, o mercado de créditos de Carbono pode ser uma das soluções viáveis para uma complexa equação. 

O que é o Crédito de Carbono

Basicamente, o crédito de carbono é uma licença ou certificado que permite ao titular – uma empresa – emitir CO2 ou outros GEE além dos limites estipulados. Ou seja, ao adquirir esse “crédito” expressa financeiramente a compensação (ou offsets) da sua operação.

A emissão de carbono na atmosfera é o que os especialistas chamam de externalidade negativa: é um subproduto da atividade econômica que cria danos no presente ou futuro. Os mercados de carbono visam ser instrumentos de incentivo à redução das emissões de GEE de maneira que estabeleça limites de emissões possibilitando a comercialização de unidades destas emissões. O comércio dos créditos permite que companhias que atribuem esforços para redução de suas emissões sejam “premiadas”, seja pela redução nas operações ou remuneradas através captura por instituições certificadas e posterior venda destes créditos (Mercados regulados e Voluntários).  A geração de um crédito aliada a uma precificação representa um instrumento que expressa que houve uma remoção ou captura de 1 tCO2e (1 tonelada de carbono equivalente) da atmosfera, o que equivale a aproximadamente uma viagem de 3.800Km. 

Os Mercados de Carbono

O valor total dos mercados globais de carbono cresceu quase 20% em 2020, atingindo U$$ 270 bilhões, sendo que o Sistema Europeu de Comércio de Emissões (EU ETS) representa quase 90% do valor global. Os mercados regionais de carbono da América do Norte – a Western Climate Initiative (WCI) e a Regional Greenhouse Gas Initiative (RGGI) com 16% em termos de valor de mercado global desde 2019, para U$$ 25 bilhões e U$$ 2 bilhões, respectivamente.

Mais empresas estão se alinhando com esta agenda: em menos de um ano, o número de companhias com promessas líquidas zero dobraram, de 500 em 2019 para mais de 1.000 em 2020.

Dado o bombardeio de notícias sobre como grandes companhias estão formatando a transição de suas operações para alguma forma de neutralidade de carbono (ou seja, emitindo zero GEE líquido) ou negatividade de carbono (isto significa, sequestrando mais GEE líquido do que produzem), casos como da  TESLA, chamam a atenção na forma de como as operações tem se adaptado às regulações e oportunidades de mercado. 

A receita da Tesla atingiu US $ 6,04 bilhões durante o segundo trimestre de 2020, com cerca de 7% disso, ou seja, US$ 428 milhões, provenientes de vendas de créditos regulatórios ligados a emissões (GEE). A estimativa para 2021 é superior a US $ 1,3 bilhão.

A Tesla não diz para quais as montadoras que vende os créditos, embora a General Motors e a Fiat Chrysler tenham revelado em 2019 que haviam fechado acordos para comprar créditos de gases de efeito estufa da empresa nos Estados Unidos. A Fiat também estimou naquele ano que gastaria 2,2 bilhões de dólares em créditos ao longo de vários anos e anunciou que combinaria sua frota com a da Tesla para cumprir os padrões de CO2 da União Europeia.

Há dois tipos de mercado: Regulado e Voluntário

Fonte: https://www.sustainalize.com/news/to-offset-or-not-to-offset-thats-the-question/

Os mercados regulados são criados e regulamentados sob a obrigatoriedade de redução de emissões e podem ser estabelecidos de forma internacional, nacional ou regional.

Um ETS (Emission Trading System), também conhecido como mecanismo de “cap and trade”, estabelece um limite ou teto obrigatório para as emissões de Gases de efeito estufa em um conjunto predefinido de fontes de emissão e de acordo com os setores de atuação. As companhias cujas emissões excedem seus limites pré-estabelecidos podem comprar “créditos” excedentes ou pagar multas para preencher as lacunas da operação fora do escopo estabelecido pela regulação. Os limites podem ser “apertados” com o tempo para promover o estabelecimento das reduções de emissões.

Mercado Voluntário: 

Os mercados de compensação voluntária funcionam fora dos mercados regulados e permitem que instituições e indivíduos adquiram créditos de carbono voluntariamente movidos por uma variedade de considerações relacionadas à responsabilidade social, ética, riscos de reputação ou da cadeia de suprimentos.

O mercado voluntário de créditos de carbono cresceu significativamente nos últimos anos. A McKinsey estima que em 2020, os compradores retiraram os créditos de carbono por cerca de 95 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO2e), o que seria mais do que o dobro de 2017. 

Como investir

No Brasil, é possível ter exposição a esse mercado regulado através do fundo Trend Carbono Zero, recém-lançado pela XP Investimentos. A estratégia do fundo é replicar o ETF (Exchange Traded Funds), fundo listado em bolsa, KRBN, da gestora Krane Shares. Este ETF segue o índice IHS Markit Global Carbon Index, e reflete o preço ponderado por volume do carbono nos sistemas de comércio de emissões na EU (European Union Allowance), Califórnia (California Carbon Allowance (CCA) e nordeste dos EUA Regional Greenhouse Gas Initiative (RGGI).  

Vantagens

Os créditos de carbono foram concebidos como um mecanismo orientado para o mercado para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

        •       As empresas obtêm um determinado número de créditos, que diminuem com o tempo. Eles podem vender qualquer excesso para outra empresa.
        •       Assim, o “limite e comércio” é um incentivo para reduzir as emissões.

Riscos

        •       Alta volatilidade dos preços aumenta o risco do ativo.
        •       Os ETS são vulneráveis ​​a lobby político em maior ou menor grau de acordo com região e sistemas, o que pode atrasar a implementação e endurecimento do limite (e, portanto, atrasar as reduções de emissões);
        •       Em um ETS, as instituições cobertas têm um incentivo para superestimar as emissões da linha de base. Isso pode levar à super locação de permissões, especialmente nas fases iniciais de um Emission Trading System, o que reduz o potencial do sistema de promover reduções de emissões. 

Os mercados de Carbono tendem a equalizar uma transição complexa e, certamente, desempenham algum papel nos processos de planejamento estratégico de companhias e governos.  No Brasil a discussão tem andamento através da PL 528 para estruturação de um mercado regulado e avanços significativos no mercado regulado com iniciativas de mercado promissoras.

Há o imperativo de uma transição para economia de baixo carbono, que surge aliada a percepção de valor por parte de suas demandas em ações alinhadas aos compromissos socioambientais.

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