Veedha ESG – Semana Mundial do Meio Ambiente: Transição Energética, um novo consenso para um desenvolvimento Sustentável

Por: Luiz Fernando Quaglio

Semana Mundial do Meio Ambiente:

Transição Energética, um novo consenso para um desenvolvimento Sustentável

Do fogo para a tração animal. Do carvão ao petróleo. As transições energéticas são capítulos que se estendem ao longo da história e a preponderância de um elemento pelo outro ocorre pela necessidade de melhorar a eficiência nos modos de produção e trazer maior poder energético, com menor custo, na utilização de recursos escassos.

No entanto, a transição energética do século XXI é uma revolução histórica que carrega uma característica importante:  conter a escalada de consequências da degradação socioambiental ocasionada pelas mudanças climáticas, que foram geradas, em grande parte, pelo uso maciço de combustíveis fósseis.

Encontrar um caminho para a transformação global de uma matriz fóssil, esgotável e altamente poluente, em um modelo renovável, limpo e escalável, que orienta uma nova etapa de desenvolvimento, agora denominado Sustentável, é fundamental dentro de qualquer escopo estratégico para o desenvolvimento de longo prazo.

Apesar da conjuntura favorável, o desmonte de uma infraestrutura que movimenta o cotidiano de países, empresas e cidadãos globalmente há mais de cem anos não é uma tarefa trivial.

Pela complexidade, o debate desta “transição” carrega premissas e arranjos delicados que se estendem desde o século passado. Dois deles:

i)  A possibilidade de um consenso, construído a partir de países, empresas e indivíduos

Um encontro realizado em 1972, em Estocolmo, é considerado o marco da primeira tentativa de um “método” em comum. A reunião, que pactuou em sua abertura o Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho) com acriação do PNUMA(Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), reuniuchefes de Estados para a agenda ambiental, definiu a “declaração das Nações Unidas para o meio ambiente” e plantou as “sementes” de onde, posteriormente, derivou o Relatório Bruntland e o Protocolo de Montreal, elaborado pela Comissão mundial sobre o Meio Ambiente da ONU e publicado em 1987, com assinatura de 150 países. Alguns anos depois, a ECO 92, no Rio de Janeiro, onde foi assinada a “carta da Terra” que consolidou as frentes práticas da sustentabilidade, convocou a iniciativa privada a assumir com responsabilidade os desafios de um desenvolvimento sustentável.  E, posteriormente, avançando para reuniões realizadas em Kyoto em 1997, Johannesburgo em 2002, Rio Janeiro em 2002 e 2012. As reuniões culminaram com o Acordo de Paris em 2015, assinado por 195 países, propondo objetivos e metas para a redução dos gases causadores do efeito estufa. Por fim, a Cúpula do Clima, realizada em abril de 2021 e organizada pelos EUA, marca uma nova etapa com uma guinada “green” na economia global.

A premissa de todos os eventos sempre teve como pano de fundo a transição energética. Associada diretamente aos objetivos de reversão de degradação do meio ambiente, mas, também, com consenso ético para a construção de uma nova economia.

ii) Esgotamento das reservas de petróleo

O “fim da era do petróleo” já foi decretado em algumas ocasiões ao longo do século XX até o século XXI. Após algumas previsões – claramente superadas –, projeções atuais declaram o “fim” para meados de 2060. Estima-se que hoje o estoque global gire em torno de 2 trilhões de barris. É inegável que muitos dos avanços das energias alternativas só foram possíveis pela abundância de combustíveis poluentes que sustentam o processo de transição a um alto custo socioambiental. Além da concentração geográfica na produção, 50% dos gases tóxicos são emitidos por seis países e em torno de 20 empresas multinacionais; destas, 33% das emissões de CO2 são originadas de empresas de petróleo privadas e estatais.

No entanto, pode não haver retorno ao “normal” para o mercado de petróleo.

Dia 26 de maio, em decisão histórica, o Tribunal holandês proferiu sentença obrigando a Royal Dutch Shell, uma das maiores petrolíferas do mundo, a intensificar sua transição para uma operação de baixo carbono em 45% até 2030, em detrimento ao plano original da companhia, de 20%. Um sinal com potencial de causar um efeito cascata na indústria com fortes consequências em suas operações e direcionamento para aceleração de investimentos nas matrizes renováveis.¹

A transição em números

O uso de energia renovável aumentou 3% em 2020, pois a demanda por todos os outros combustíveis diminuiu. O principal fator foi um crescimento de quase 7% na geração de eletricidade a partir de fontes renováveis. Assim, a participação das energias renováveis ​​na geração global de eletricidade passou de 27% em 2019 para 29% em 2020. O uso de bioenergia na indústria cresceu 3%, mas foi amplamente compensado por um declínio nos biocombustíveis, uma vez que a menor demanda de petróleo também reduziu o uso de biocombustíveis misturados.

A geração de energia renovável em 2021 deve se expandir em mais de 8%, para chegar a 8 300 TWh, o crescimento anual mais rápido desde os anos 1970. A energia solar fotovoltaica e a eólica deverão contribuir com dois terços do crescimento das energias renováveis. Só a China deve responder por quase metade do aumento global da eletricidade renovável em 2021, seguida pelos Estados Unidos, União Europeia e Índia. O custo médio também vem caindo ao longo da dos últimos anos.

Fonte: IEA, Renewable electricity generation increase by technology, 2019-2020 and 2020-2021, IEA, Paris https://www.iea.org/data-and-statistics/charts/renewable-electricity-generation-increase-by-technology-2019-2020-and-2020-2021

E o Brasil?

O Brasil possui cerca de 83% de sua geração em energia renovável. Um protagonista global – ficando atrás apenas da Noruega.

Fonte: https://yearbook.enerdata.net/renewables/renewable-in-electricity-production-share.html

O setor elétrico brasileiro é responsável por 3% das emissões de gases de efeito estufa no país. No mundo, a média é de 25%, sinalizando uma vantagem comparativa na “largada”.  Além disso, a energia limpa e renovável no Brasil também é uma das mais competitiva (baratas) do mundo. 

Especialmente no Nordeste, o Brasil tem o “pré-sal” das renováveis com investimentos diretos sendo realizados e com imenso potencial de condições naturais, luz solar e vento em praticamente todos os dias do ano. O desafio do Brasil não é físico, mas, sim, para criar condições propícias de mercado, transformando o ambiente físico em oportunidades para o país e a sociedade.

Hidrelétrica, solar, eólica, biomassa da cana, pequenas centrais hidrelétricas, inserção do gás, que no Brasil pode ser feita com valor ambiental deslocando combustíveis de maior emissão. É fundamental utilizar esse potencial como alavanca de valor para, através da energia renovável, desenvolver outros vetores de combustíveis com alto valor agregado (como o hidrogênio verde); ampliar um ecossistema industrial “green”, que incentive o investimento em inovação, biotecnologia e pesquisa; eletrificar a economia para um processo contínuo de descarbonização dos setores de transporte, indústria de transformação, construção civil e, principalmente, a produção da agropecuária brasileira.

A chave da disrupção é um equacionamento regulatório dentro de um plano estratégico adequado – e de longo prazo – que ordene o desenvolvimento para um ecossistema sustentável. Tudo isso integrando tecnologias diversas e acesso a financiamento (inclusive aos pequenos produtores de energia), de forma a alterar substancialmente toda a cadeia de produção brasileira – gerando sofisticação, complexidade na produção, emprego e renda com base em energia limpa e renovável.

O entendimento desta complexa e histórica transição energética é fundamental para a compreensão das oportunidades de investimentos já no curto prazo. À medida que os fluxos de capital gerem grande liquidez nos mercados – e entende-se a energia limpa como fonte de valor –, surgem diversas oportunidades com potencial de rentabilidade. A transição energética propõe mudança de paradigmas. Uma transformação que chegará às nossas casas, empresas, aos combustíveis dos carros e, certamente, deverá estar em nossos portfolios e carteiras de investimentos.

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