“Carta Mensal – “Não é sobre a Petrobras, é sobre o Brasil”

Vamos recapitular de onde partimos em 2019? Afinal, ao longo dessa “viagem” alguns passageiros se arrependeram do pacote turístico.

Tema corriqueiro em nossas cartas mensais, o risco fiscal explica o prêmio de risco no Brasil. Ou seja, é a resposta pela taxa de câmbio desvalorizada, elevação corriqueira na precificação da nossa curva de juros e os percalços no Ibovespa.

A última troca na presidência do Brasil teve efeito imediato no pós-eleição com a expectativa de uma agenda de reformas estruturantes que recuperariam o selo do Brasil de “bom pagador” dado pelas agências internacionais de avaliação de risco. Como o mercado financeiro antecipa os eventos, essa leitura levou à valorização da nossa taxa de câmbio e fomentou o mercado acionário.

A Reforma da Previdência, que vinha sendo trabalhada durante o governo Temer, teve desfecho com a equipe de Paulo Guedes e, assim, mais esperançosos ficaram os investidores em relação à agenda eleitoral do presidente acerca dos assuntos econômicos. Depois disso, assistimos à dificuldade de emplacar as Reformas Tributária e Administrativa, com o enfraquecimento do capital político do governo nas tratativas dentro do Congresso Nacional (incluindo a debandada de alguns cargos no governo) em meio à pandemia do Covid-19.

A crise de saúde e a econômica trouxeram urgências que escancararam não apenas aos investidores, mas também à população, as consequências de uma condução desastrosa nas contas públicas.

Cá estamos…

A equipe econômica e o Congresso conseguiram superar o ápice da crise e contornar as limitações do orçamento público para conduzir a emergência do coronavírus. Com a virada para o “segundo tempo” do governo, as expectativas foram depositadas no pós-eleição no Congresso Nacional, tanto para otimizar o cronograma de vacinação quanto para, finalmente, engrenar a agenda de reformas econômicas, uma vez que a “chapa do governo” levou as presidências da Câmara e do Senado.

E, após o suspiro de alívio com a aprovação da autonomia do Banco Central – numa explicação simplória, ela representa menor capacidade de interferência do governo na instituição –, ficou ilustrado que o ambiente no Congresso estaria mais favorável para aprovação das propostas condizentes com a gestão do Orçamento Público, ou seja, as que garantiriam o cumprimento das regras básicas de responsabilidade fiscal em meio à necessidade de uma nova rodada de auxílio emergencial.

Observe que no parágrafo acima nem mencionamos privatizações, reformas econômicas robustas no campo tributário e administrativo do governo. O ambiente para negócios no Brasil mantinha-se favorável ainda que nada “extraordinário” ocorresse, pois o cenário internacional é positivo e promissor aos emergentes.

PMI (Índice de Gerente de Compras)

Fonte: Bloomberg

Os Estados Unidos caminham bem, será o propulsor da recuperação global. Há progresso no cronograma de vacinação e o Federal Reserve reforçou que, apesar dos sinais de inflação (confira no Blog da Veedha esse assunto), manterá a taxa de juros baixa pelo fato de acreditarem que após essa crise será necessário aceitar um pouco mais de inflação para garantir robustez na retomada da atividade econômica. Também devemos considerar que o presidente dos EUA, Joe Biden, tem um viés inclinado à manutenção dos estímulos fiscais, ainda que não haja celeridade pela discordância dentro do Congresso e os pacotes sejam reduzidos.

Sobre a China, os últimos indicadores econômicos indicaram que o processo de recuperação segue firme tanto no setor de serviços quanto na manufatura.

Por que o Ibovespa continua performando mesmo com o “risco fiscal”? A aceleração da atividade econômica nos Estados Unidos e na China aquece a demanda pelas commodities. Também as economias desenvolvidas seguem com as políticas monetárias e fiscais “estimulativas”, o capital estrangeiro está atrás de rentabilidade, e a renda variável já performou além do nível preliminar da crise.

Commodities

Fonte: Bloomberg

Reforçamos a explicação com o gráfico abaixo que corriqueiramente exploramos. Se “dolarizar” o Ibovespa, ele ainda não devolveu a perda da crise e está distante do pico atingido em 2008. A desvalorização da nossa taxa de câmbio deixa a bolsa brasileira em promoção para o investidor estrangeiro, que segue inserindo capital, mas em ritmo inferior ao potencial, justamente pelo temor do risco fiscal.

Ibovespa e Índice de Mercados Emergentes em Dólar

Fonte: Bloomberg

De maneira simplória, a resposta para acreditar no Ibovespa, mesmo com o alarmante risco fiscal, é justamente por seguirmos alimentando, na figura de Paulo Guedes e na atitude do presidente em mantê-lo no ministério, a esperança de que haverá o endereçamento das questões fiscais, ao menos para não transbordar o teto dos gastos em 2021.

Também está claro que existem as razões microeconômicas, pertinentes às empresas e aos setores. Por exemplo, há uma carência importante de materiais e insumos no setor de infraestrutura. Dificuldade em obter matérias-primas ou insumos domésticos – percentual do total de respostas (%)

Fonte: Confederação Nacional da Indústria (CNI)

A Petrobras ilustrou o famoso “risco político” no Brasil

A empresa perdeu valor, recuperou parcialmente nos últimos dias e, provavelmente, deve anular esse prejuízo se o encaminhamento da nova presidência não for problema. No entanto, nossa taxa de câmbio e a curva de juros sentiram as consequências com a majoração na avaliação de risco; são ativos que somam o risco fiscal.

O caso da Petrobras diz mais sobre “interesse político” (inegável a pressão dos caminhoneiros e o descontentamento com a política de preços) do que sobre a empresa (não houve uma falha de gestão) e o cidadão (a questão da isenção tributária sobre o combustível balizaria a pressão com a correção nos preços da gasolina e do diesel, mas essa atitude majora outros preços diante da desvalorização da nossa taxa de câmbio com a percepção de risco com uma intervenção do presidente na Estatal).

O espaço não é para questionar a decisão de alterar a presidência na Petrobras. Na avaliação dos analistas a empresa não irá degringolar. Muito provavelmente, sob a nova presidência a empresa não deve alterar significativamente a política de preços, até porque uma mudança não é tão simples. Com o tempo, a nova gestão poderá parametrizar uma frequência diferente ou uma banda com limites de variações percentuais de reajuste.

O objetivo é expor que as consequências são “mais danosas” para outros mercados (juros e câmbio) do que propriamente o do ativo negociado, o Ibovespa e a Petrobras. Afinal, o cenário internacional é favorável às commodities, que sustenta a recuperação da empresa e o balanço do 4° trimestre surpreendeu positivamente.

O que se altera no cenário da economia brasileira após a “mudança” na Petrobras? Nada.

Pode parecer um absurdo, mas o fato é que, apesar de no curto prazo os ativos domésticos terem sido penalizados, especialmente as ações da petroleira, haverá uma recuperação se não acontecer um fato relevante. A situação envolvendo a estatal evidenciou como são desafiadoras as tratativas no âmbito político. E como, conforme passa o tempo e se aproxima a eleição de 2022, menos provável são os progressos no Congresso.

CDS de 5 anos e Taxa de Câmbio – Brasil

Fonte: Bloomberg

Entre os riscos para o Brasil, o principal é o fiscal. Se o governo ou o executivo sinalizarem com medidas não compatíveis com a estabilidade da razão dívida/PIB, a expectativa de inflação e os juros tendem a subir, e a desorganização macroeconômica acabará por abortar a recuperação.

Na prática, após esse evento, a curva de juros passou a precificar a elevação da Selic em março, na magnitude de 0,50 ponto percentual, e a taxa de câmbio acumulou motivo para não romper os R$5,20 no curto prazo, conforme alertamos na Carta de Fevereiro. 

Curva de Juros (%) – Brasil

Fonte: Bloomberg

Não há alternativa a não ser preservar a tentativa de emplacar uma agenda de reformas, e ao menos aprovar algum formato de PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que garanta contrapartidas relevantes para a gestão fiscal no momento em que se optar pela nova rodada de auxílio emergencial. Esta é a única capaz de trazer uma resolução, ainda que temporária, sobre os ativos domésticos.

Oportunidades de investimento

O mercado oscila de humor a todo momento; mudam as premissas das projeções e dos preços-alvo a cada nova notícia, tornando tudo mais otimista ou pessimista. Na maioria das vezes, no entanto, o fato se mostra irrelevante dias ou até minutos depois.

Fevereiro foi marcado pela chegada do Ano Novo chinês, trazendo a esperança de um novo superciclo de commodities, que continuam a fazer novas altas de preços. Nossa carteira recomendada destaca os fundos e produtos que deverão se beneficiar desse ciclo: fundos multimercados focados nos mercados globais, fundos internacionais, diversos ativos indexados à inflação e papéis de renda fixa pós-fixados, visando sempre a rentabilidade e a proteção patrimonial.

Bolsa

No Brasil, foi destaque o crescimento dos riscos políticos novamente, com o aumento de interferência nas empresas estatais, como a Petrobras. Por enquanto, ainda é cedo para dizer se houve uma mudança na política econômica. Porém, a queda do Ibovespa abre oportunidades de compra para empresas de alta qualidade.

Na semana em que o Brasil completa um ano da descoberta do primeiro caso interno de corona vírus, a Bolsa brasileira passa a contar com mais uma empresa no grupo de companhias que atingiram o valor de mercado de R$ 100 bilhões. É a Suzano, fabricante de celulose e papel, que atingiu a marca de R$ 101,2 bilhões após a sessão de sexta-feira da Bolsa. Entre as 12 empresas deste seleto grupo, quatro são do setor de bancos e oito pertencem a oito diferentes segmentos. Vimos a Bolsa se recuperar em 2021, mas, infelizmente, o Ibovespa voltou a se desvincular dos mercados globais por causa dos riscos locais. E o mês de fevereiro nos lembrou, mais uma vez, que a política continua a ser um assunto de muita relevância no Brasil, reforçando nosso call de focar nas empresas e setores que estejam mais atrelados à economia global.

Fonte: Bloomberg, XP Investimentos

Inflação

 Como destacamos nas cartas anteriores, nossa preocupação com a inflação tem sido uma constanteEm cenário de maior risco e cautela, os preços dos títulos do tesouro indexados ao IPCA, as NTN-Bs, tendem a subir, como ocorreu em fevereiro. Para aproveitar essas oscilações de maneira eficiente, fundos ativos, que têm como benchmark os índices inflacionários, tornam-se boas opções para o portifólio.

Fundos internacionais

A baixa correlação internacional com os ativos brasileiros pode funcionar como proteção aos eventos de choque. E, como mostrou o caso da Petrobras, mais uma vez essa premissa se prova ser verdadeira. Como dissemos antes, a política é importante no Brasil e é por isso que a diversificação dos investimentos também é.

 O aumento da percepção de risco em relação ao país provavelmente fez com que os investidores locais com exposição apenas ao Brasil vissem perdas, enquanto a maioria dos mercados lá fora subiu. E, embora a recuperação global não tenha sido ampla, mas sim focada em setores e regiões mais cíclicos, os ativos estrangeiros tendem a não estar correlacionados com os riscos domésticos, e devem ter protegido as carteiras de muitos.

 Mesmo assim, há um lado positivo nesta história. Com a correção do índice brasileiro, abriram-se oportunidades de compra em empresas privadas de alta qualidade. A questão agora é se as incertezas políticas desaparecerão. Independentemente disso, os investidores devem concentrar-se nos fundamentos, e não no sentimento, pois eles tendem a impulsionar os retornos de longo prazo. Por isso, mantenha o contato com o seu assessor para garantir que o seu portfólio esteja balanceado. As perspectivas de longo prazo devem guiar suas decisões de investimentos, mas é fundamental entender os fatores que podem trazer volatilidade no curto prazo e afetar a sua rentabilidade.

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