“Investimentos – Renda Fixa”

Por: Cristina Cardoso

CRIs, CRAs

O mercado de CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) e CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) passou por uma desaceleração nas emissões no ano passado devido à pandemia de covid-19, mas a expectativa é de que, com a recuperação da economia, 2021 seja um período de mais emissões, além de ganho na qualidade dos processos e produtos levados ao mercado.

Essa perspectiva otimista é da ABSia (Associação Brasileira das Securitizadoras Imobiliárias e do Agronegócio) e vem na esteira da criação da Superintendência de Supervisão de Securitização da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) no início deste ano.

O olhar mais específico para a securitização deve subir a barra de qualidade e melhorar esse mercado. Com fiscalização mais proativa, mais regras e maior transparência para os investidores e o mercado em geral.

CRIs e CRAs são dois tipos diferentes (embora parecidos) de títulos securitizados de renda fixa. Saiba que securitizar é o mesmo que transformar créditos a receber – como parcelas de uma venda a prazo ou pagamentos de um financiamento – em papéis que podem ser comprados por investidores e negociados no mercado.

Pense em uma construtora. Cada casa vendida só é quitada ao longo de vários anos, conforme os compradores forem pagando todas as parcelas devidas. Agora, imagine que, para começar seu próximo empreendimento, essa construtora necessite levantar recursos. Uma forma de captar dinheiro é “empacotar” os pagamentos futuros que seus clientes ainda farão pelos imóveis que já compraram em um CRI – e vendê-lo no mercado.

Nessa operação, ao ceder seus recebíveis (créditos que tem para receber), a construtora consegue antecipar recursos que só receberia em 10, 20 ou 30 anos. As securitizadoras organizam todo esse processo, comprando as dívidas, emitindo os CRIs e os disponibilizando para os investidores. Eles, por sua vez, são remunerados ao longo do tempo conforme os recebíveis forem sendo quitados.

A principal diferença entre CRIs e CRAs é a origem dos recebíveis securitizados. No caso dos CRIs, o lastro são créditos ligados ao setor imobiliário, como financiamentos residenciais, comerciais ou para construções, além de contratos de aluguéis de longo prazo. Já os CRAs têm como base empréstimos relacionados à produção, à comercialização, ao beneficiamento ou à industrialização de produtos, insumos ou máquinas do agronegócio.

Dentro de um CRI ou de um CRA podem ser encontrados recebíveis de valores diferentes, prazos distintos e remunerações específicas. O que a securitização faz é exatamente uniformizar essa cesta em um papel com taxas e riscos determinados e um fluxo de pagamentos definido.

Como o risco dos certificados é apartado do risco da securitizadora, se ela tiver dificuldades financeiras, o fluxo de pagamento para os investidores não será afetado, porque os recebíveis estão formalmente separados do patrimônio da securitizadora.

              Como funcionam

              Na prática, os CRIs e os CRAs se parecem com outros investimentos de renda fixa: ao comprar os papéis, em troca de manter os recursos aplicados, o investidor recebe uma remuneração (juros).

              No entanto, existem algumas especificidades que devem ser consideradas antes de se pensar em fazer a aplicação. Confira os detalhes abaixo:

              Rentabilidade

              Por serem papéis de renda fixa, a remuneração que os certificados de recebíveis oferecem aos investidores segue um modelo semelhante ao de outros investimentos da categoria. Normalmente, CRIs e CRAs adotam uma das estruturas a seguir:

              Remuneração híbrida: os certificados desse tipo têm uma parcela prefixada e outra pós-fixada de rentabilidade. A parcela prefixada assegura uma taxa de juros mínima (como 4% ou 5% ao ano). A pós-fixada é a variação da inflação, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) ou pelo IGP-M (Índice Geral de Preços – Mercado).

              Qual desses formatos de remuneração é o melhor? Isso depende das características e dos objetivos de cada um com o investimento. Algumas estruturas são ideais para preservar o poder de compra no longo prazo, enquanto outras são mais adequadas para as épocas em que as taxas de juros estão caindo ou subindo. É necessário considerar esse conjunto ao escolher uma alternativa.

              Remuneração prefixada: o investidor já sabe desde o momento em que compra o certificado o valor da taxa de juros que receberá ao longo do tempo – 3%, 5% ou 10% ao ano, por exemplo. Assim, é possível calcular exatamente a rentabilidade em reais que obterá até o vencimento do papel;

              Remuneração pós-fixada: o investidor sabe o indicador que servirá de referência para a remuneração desde o início, que pode ser o CDI (principal índice de rentabilidade da renda fixa) ou a Selic (taxa básica de juros da economia brasileira), por exemplo. O retorno efetivo da aplicação, no entanto, é desconhecido, pois seguirá a            dinâmica das variações do indicador. Se ele subir ou cair ao longo do tempo, a remuneração em reais poderá ser maior ou menor.

              Nesses casos, o retorno dos CRIs e CRAs é um percentual do indicador de referência – como 110% do CDI ou 90% da Selic ao ano. Assim, o investidor receberá 110% do que render o CDI ao longo de um ano ou 90% da Selic.

              Também é possível encontrar papéis que adotam a fórmula “CDI mais spread”, em que a remuneração é igual ao CDI mais uma taxa – 1% ou 2% ao ano, por exemplo.

              Liquidez

              O nível de dificuldade para resgatar o dinheiro aplicado nos certificados de recebíveis é um fator que os investidores precisam avaliar. De modo geral, CRIs e CRAs são considerados produtos de baixa liquidez. Para quem não tem certeza de que poderá manter os investimentos até o vencimento, eles podem ser uma opção ruim.

              Via de regra, os certificados de recebíveis são investimentos com vencimento no longo prazo – de pelo menos dois anos, podendo chegar a mais de 15 anos. Para receber a remuneração acordada na época da emissão, o investidor deve manter a aplicação durante esse período inteiro.

              Não há um valor mínimo de investimento em CRIs ou CRAs previsto em regulação. Muitos desses papéis são emitidos por um valor de base bastante acessível e disponíveis, em plataformas, por menos de R$ 1 mil. Vale lembrar que algumas ofertas podem ser restritas a investidores qualificados (que possuam pelo menos R$ 1 milhão de patrimônio alocado em aplicações financeiras).

              Se precisar dos recursos antes do vencimento, a alternativa é recorrer ao mercado secundário, para tentar vender os papéis diretamente a outros investidores que estejam interessados. Na B3, CRIs e CRAs são negociados no Bovespa Fix, ambiente em que são listados outros papéis de renda fixa. Além dos certificados de recebíveis, também são operados por lá FIDCs (fundos de direitos creditórios), debêntures e letras financeiras, entre outros.

Apesar de existir o mercado secundário para esses ativos, a liquidez é restrita. Em grande parte, isso se dá porque outros produtos de renda fixa são emitidos em muito maior volume do que CRIs e CRAs. Um exemplo ocorreu em 2019. No ano, foram emitidos R$ 173 bilhões em debêntures e R$ 35 bilhões em notas promissórias, enquanto o volume de CRIs não chegou a R$ 16 bilhões e o de CRAs se aproximou de R$ 14 bilhões.

              Riscos e garantias

              Em um primeiro momento, por algumas das suas características, os certificados de recebíveis podem lembrar bastante outros papéis vinculados aos mesmos segmentos: as letras de crédito imobiliário (LCI) e do agronegócio (LCA). Existem, no entanto, diferenças profundas no sistema em que a emissão de cada um desses papéis está baseada.

              Um exemplo é o risco que cada produto embute. Quem compra uma letra de crédito fica exposto ao risco geral da própria instituição financeira – normalmente um banco – que a emitiu. Assim, se o banco tiver um problema de liquidez, mesmo que não diretamente ligado ao lastro das letras, os investidores também sentirão o impacto.

              Com os CRIs e os CRAs isso pode ser diferente. Quando os papéis são emitidos dentro do chamado “regime fiduciário”, o investidor não corre risco com a companhia securitizadora – que é apenas um veículo da emissão. O risco a que ele fica exposto é exatamente o das operações incluídas nos certificados.

              Em outras palavras, o que conta é a capacidade de pagamento de quem tomou o financiamento imobiliário ou fez empréstimo para comprar um trator. Quanto maior for o risco de esse grupo de compradores dar um calote nas suas dívidas, mais arriscado o papel é considerado.

              A vantagem, na prática, é que o risco dos certificados é afastado do risco da securitizadora. Se ela tiver dificuldades financeiras, o fluxo de pagamento para os investidores não será afetado, porque os recebíveis estão formalmente separados do patrimônio da securitizadora.

              Por outro lado, uma desvantagem é o fato de que CRIs e CRAs não são cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O fundo devolve até R$ 250 mil por investidor se uma instituição que emite papéis como LCIs e LCAs – além de CDBs e a própria poupança – tiver problemas financeiros.

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