“Semana Veedha – Elevação de juros em legítima defesa”

O Banco Central do Brasil (BCB) alterou a condução da política no Brasil. A Selic passou de 2% para 2,75% e na próxima reunião que acontecerá em maio eles devem elevar para 3,50%, conforme a indicação no comunicado da última quarta-feira (17). Os analistas vinham considerando que essa taxa poderia encerrar o ano ao redor de 4,50%. Agora, as projeções para a Selic tendem a aproximar-se de 6%, pois o início do ciclo de elevação será mais acelerado que o previsto pelo mercado financeiro e precificado no mercado de juros.

O Comitê de Política Monetária (Copom) mostrou preocupação em reduzir a probabilidade de não cumprimento da meta para a inflação deste ano (3,75%), assim como em manter a ancoragem das expectativas para horizontes mais longos, como a meta de 2022 (3,5%). As projeções para a inflação ao consumidor (IPCA) caminham para 5% em 2021 e 4% em 2022.

Elevar a taxa de juros não deveria ser algo ruim. Pois, quando há aquecimento da atividade econômica, é natural que se apertem as condições monetárias para reprimir a pressão de demanda que gera inflação. Afinal, ninguém quer ver seu poder de compra corroído pela inflação. No entanto, a dinâmica da política monetária no Brasil é comprometida pela política fiscal.

Quando, finalmente, acreditávamos que o governo faria a “lição de casa”, após a Reforma da Previdência, a articulação com o Congresso degringolou e veio a pandemia. Fica difícil convencer os investidores, sem um plano concreto, de que haverá uma redução do endividamento do país. Pode entrar governo de esquerda, de centro ou de direita, no entanto o fato é que a dinâmica depende não apenas de um núcleo federal comprometido com a agenda de reformas, mas também de uma base de apoio com políticos engajados na tramitação dentro do Congresso.

O Copom reconheceu que existe risco de desaceleração do ritmo da atividade econômica, com o retrocesso no processo de reabertura das atividades no Brasil e os lockdowns. Mas não vai “pagar para ver” se isso irá se sobrepor ao efeito do risco fiscal.

Os economistas passaram a elevar as projeções para a inflação acreditando em um cenário em que o governo não vai conseguir converter tão cedo a prática de gastar muito mais do que arrecadar. E esse gasto não é com investimentos; cerca de 95% são gastos obrigatórios e grande parte com pagamento de salários.

Atividade econômica fraca e preços subindo, um pesadelo no Brasil! A elevação da inflação corrente (o IPCA registrou alta de 5,20% em fevereiro) acontece pelas seguintes razões:

  1. Estatística: As variações do IPCA foram baixas no primeiro semestre de 2020 devido à pandemia. Com a reabertura das atividades e do comércio internacional, a oferta de commodities não supriu a demanda reprimida pelo lockdown. Os preços dos alimentos aumentaram, junto com outros insumos que encareceram por causa da desvalorização da taxa de câmbio. Os preços de produtos industrializados subiram como consequência dessa dinâmica.
    Assim, o IPCA registrou variações mensais mais expressivas no segundo semestre. As variações baixas e até negativas do primeiro semestre vão saindo do “carrego”; ele vai acelerando.
  2. Commodities: Os analistas não estavam vendo um boom das commodities em 2020.  Em geral, as projeções para os preços eram de desaceleração devido a uma recomposição dos estoques. Só que isso não aconteceu e as variações de muitos produtos de alimentação e combustível, por exemplo, seguem em alta. Os estímulos monetário e fiscal nos Estados Unidos, principalmente, puxaram a expectativa para o PIB global. A maior economia do mundo crescendo ao redor de 6,5% em 2021 (projeção do Federal Reserve) é positivo para as commodities.
  3. Taxa de câmbio: O prêmio de risco Brasil é pelo risco fiscal. A falta de clareza do governo sobre o futuro das contas públicas representa um empecilho para a recuperação do real. A incerteza com o cenário político piora a situação.

Os dados da atividade econômica podem, em algum momento, suavizar o ritmo de elevação da Selic, mas dificilmente interromperão o processo. A motivação dessa elevação é a ausência de uma perspectiva positiva para as contas públicas. Pela situação da crise, a Selic foi para a mínima histórica de 2% e, pela situação das contas públicas e do cenário político, pode encerrar 2021 próxima de 6%, mesmo sem a recuperação econômica.

O gráfico da taxa de juros real deixa mais claro como o Banco Central vai tornar a política monetária “menos estimulativa”. Taxa de juros real negativa, como observamos em economias desenvolvidas, sem problemas fiscais acentuados e caos político, não faz sentido no Brasil. O intuito do Banco Central é deixar a taxa de juros real ao redor de zero. Com a inflação subindo, a taxa Selic precisa subir.

Taxa de Juros Real no Brasil (%)

Fonte: Bloomberg / Elaboração: Veedha

O comportamento dos investimentos com a alta de juros

O aumento de 75bps não deve provocar mudanças significativas de modo imediato, mas sinaliza um início de reconfiguração dos investimentos, em termos de rentabilidade. Considerando ainda que o Banco Central sinalizou que este foi apenas o início do movimento, garantindo para a próxima reunião mais 75bps de alta na taxa Selic.

Bolsa de Valores

O legado dos juros baixos para a Bolsa de Valores brasileira deve permanecer: mais investidores pessoa física, que atingiu a base de 3,261 milhões de CPFs em dezembro do ano passado. Apesar da alta dos juros, não recomendamos a saída de ativos de renda variável, tampouco acreditamos que esse movimento irá ocorrer.

Em virtude da situação bastante atípica da economia brasileira, que registra alta da inflação com economia desaquecida, o aumento dos juros será positivo para os preços das ações, pois reduzirá as incertezas sobre o futuro.

Existem muitas oportunidades no Ibovespa: mercado de IPOs aquecido, muitas empresas que deverão se beneficiar da retomada da economia global, além daqueles setores que respondem positivamente à alta dos juros no Brasil. A princípio, bancos e seguradoras tendem a ser positivamente beneficiados, enquanto varejo e construção civil devem sofrer impacto negativo.

Curva DI e NTN-B

Na semana de decisão do Copom, houve leve movimento de achatamento (flattening) na curva de juros, que é a curva de referência para precificação dos ativos no mercado financeiro.

As taxas de juros para prazos mais curtos subiram, enquanto as taxas longas apresentaram relativa estabilidade em relação à última semana. A queda na inclinação foi atenuada pelo avanço das taxas dos títulos soberanos dos EUA. O mesmo movimento foi observado nas taxas das NTN-Bs. (conforme o gráfico a seguir). Esse movimento de ajuste nas taxas traz volatilidade e oportunidades de investimentos nos ativos de renda fixa que usam essas taxas como referência.

Curva de Juros Brasil (%) – Vencimentos Futuros

Elaboração: XP Investimentos


Curva NTN-B (%)

Assista o Vídeo Clicando AQUI

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