“Economila – Você sabe por que estão falando que a taxa Selic vai subir ?”

Por: Camila Abdelmalack

Adotado em agosto de 2020, o “forward guidance” é um instrumento do Banco Central e foi utilizado como uma indicação técnica de que não pretendia elevar os juros se a inflação seguisse sob controle e o risco fiscal não se alterasse. 

O instrumento “caiu” na reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) em janeiro, e deixou de fazer sentido em virtude da “desancoragem” das expectativas de inflação. O que isso significa? O Banco Central persegue as metas de inflação determinadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Para 2021, a meta é de 3,75% e de 3,50% para o ano de 2022. O relatório FOCUS (relatório semanal do Banco Central que agrega as projeções dos economistas) começou a indicar na virada do ano que as projeções para 2020 estavam sendo corrigidas para cima. 

A política monetária é o instrumento que garante a estabilidade dos preços na economia. Na situação de revisão do IPCA para além da meta estabelecida, muito provavelmente haverá uma reação por meio da taxa de juros. 

O que está acontecendo com os preços ao consumidor (IPCA)?

A inflação ao consumidor está acelerando no acumulado em doze meses (5,20%% em fevereiro) por causa das taxas marginais mais salgadas no segundo semestre de 2020, quando houve pressão em itens como alimentos e bens industriais, em decorrência do desabastecimento com a paralisação das atividades. 

O descasamento entre oferta e demanda foi resultado da crise e trouxe um problema de abastecimento. A insuficiência de estoque de insumos influenciou na produção de bens duráveis e semiduráveis, elevou os preços, com uma pressão ainda maior após a retomada das atividades econômicas. 

A alta dos preços dos insumos foi anunciada pelo índice IGP-M (Índice Geral de Preços). A valorização nos preços das commodities explica o salto de quase 32% dos preços ao produtor, responsável por 60% de índice. Esse, além de antecipar a pressão dos custos dos produtores, é utilizado para a revisão de contratos de aluguel e mensalidades escolares, cursos e afins. 

O contexto do cenário financeiro mundial é de retomada da atividade econômica; o PIB global estimado pela OCDE é 5,63% em 2021, após queda ao redor de 3,4%. Os Estados Unidos são o percussor desse movimento, com um PIB projetado de 6,5%. Somando isso à projeção de crescimento de 7,8% da China, temos as duas principais potências acelerando e, consequentemente, demandando mais commodities. 

Isso explica a alta nos preços de metais e energia, a razão do encarecimento de muitos insumos, mas também indica uma situação em que não foram ainda normalizados os estoques de muitas linhas de produção. 

Vamos entender o contexto do IPCA e da taxa de juros! 

Os preços de combustíveis ilustram bem essa situação da valorização das commodities no mercado externo. A política de preços adotada pela Petrobras vincula as revisões ao preço do petróleo no comércio internacional, e a correção desde o início do ano vem sendo expressiva, já que o barril do petróleo saltou de US$50 no início de 2021 para próximo de US$70 em março. 

Preços de combustíveis, de transporte público, energia elétrica e água são exemplos de preços “administrados” e que respondem por cerca de 30% do IPCA. O Banco Central, teoricamente, não reage a esse conjunto de preços e sim aos preços livres que representam 70% do índice, e refletem o nível da atividade econômica, como é o caso do grupo de serviços. 

Veja: se a atividade econômica está fraca, menos pessoas estão empregadas e a renda disponível é menor, então ocorre menos consumo e desaceleração nos preços. Os custos dos serviços com o retrocesso da reabertura da economia devem sofrer desaceleração. 

Mesmo com a atividade econômica fraca, o Banco Central vai elevar a taxa de juros?

Tudo indica que sim! A razão é a condução da política fiscal, aquela de responsabilidade do governo, que, por sinal, está no negativo há anos, ou seja, apresentando déficit fiscal, gastando mais do que arrecada e, consequentemente, elevando a dívida governamental. Um incremento da dívida pública afeta positivamente a taxa de juros, ou seja, exige uma elevação na taxa para equilibrar a economia. 

Não parece fazer sentido uma elevação dos juros no contexto de atividade econômica fraca, mas o fato é que os investidores, que financiam a dívida pública com a compra dos títulos do Tesouro Nacional, exigem um “prêmio de risco” para isso. Se o governo gasta mais, não implementa as reformas econômicas para reverter a trajetória do endividamento, a desconfiança aumenta. Novamente, precisa pagar uma taxa maior. 

A taxa de juros e o IPCA

Fonte: Bloomberg

Em meio ao risco fiscal, o Banco Central vê as projeções acima da meta para 2021 e fica numa saia justa. Se não esboçar reação e deixar a política menos estimulativa, corre o risco de assistir às projeções de inflação crescendo. Veja no gráfico acima a correlação da inflação com os juros. 

Se o contexto do cenário econômico brasileiro não mudar, o Banco Central elevará gradualmente os juros. O relatório Focus projeta Selic em 4.5% ao fim de 2021.

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