“Carta Mensal: Brasil, onde a política é areia movediça”

O “segundo tempo” do governo Bolsonaro, após a eleição no Congresso Nacional

No “segundo tempo” do governo Bolsonaro, a novidade é a neutralização da influência do ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM).Afinal, é muito melhor enfrentar uma corrida pela implementação da agenda econômica com as presidências no Congresso aliadas ao governo.

A leitura imediata – e que refletiu positivamente nos ativos domésticos – é que melhorou o ambiente para as reformas econômicas. Mas não é bem assim! O grupo de oposição ao governo federal segue no plenário e, quando falamos de política, a relação é pendular. Fazendo jus ao título, no Brasil a política é areia movediça.

Passada a eleição, ainda existe um Congresso dividido, e é difícil pensar em constituir maioria e consenso para a aprovação de emendas constitucionais (PEC) – que depende de 3/5 dos deputados e não da maioria absoluta – com celeridade. Se essa impressão não se confirmar, será uma grata surpresa e contribuirá para a aceleração da recuperação da economia brasileira e dos ativos domésticos, com revisões para cima no Ibovespa (atualmente o consenso é ao redor de 135 mil pontos) e melhora na taxa de câmbio.

As respostas para a velocidade da recuperação estão nos cronogramas: Ministério da Saúde e governo federal (o Ministério da Economia já elaborou o receituário, mas o governo precisa se mobilizar).

A realidade, por enquanto, é que o governo Bolsonaro não se mostrou focado na agenda econômica no “primeiro tempo”. Agora, melhorou as condições para navegar no maremoto político, mas precisa estabelecer as prioridades. Portanto, nas próximas semanas a racionalidade poderá voltar; os investidores podem esperar para ver a concretização e a execução de alguma agenda em um curto espaço de tempo. Até março parece razoável esperar que o Orçamento 2021, a PEC Emergencial e o auxílio emergencial tenham evoluído. Sem a “bazuca fiscal” (leia-se Orçamento de Guerra), que acabou junto com 2020, o desafio do “abismo fiscal” – Fiscal Cliff ­– poderá ser superado logo no 1º trimestre com o plano nacional de imunização. Se não houver vacinação, perdemos o efeito do “colchão” fiscal. A capacidade do Ministério da Saúde de distribuir as vacinas é muito importante para a definição de uma recuperação consolidada e sem as muletas fiscais.

O Brasil está lidando com cronograma para vacinação, transição política e indefinições quantos às contas públicas. Olhando para a frente, houve redução na chance de uma deterioração do cenário econômico, mas a diluição do risco fiscal é primordial. Ainda que não emplaquemos grandes reformas econômicas, ao menos a aprovação das emendas constitucionais, que oferecem condições de um gerenciamento mais saudável, seria relevante para garantir a manutenção da âncora fiscal – o Teto dos Gastos.

O cenário internacional beneficia o ambiente de negócios nas economias emergentes. A força das políticas fiscais e monetárias reforça a tese de que o risco interno se sobrepõe ao externo.

Em janeiro, chamou atenção a lentidão da vacinação na União Europeia, refletindo na piora da performance relativa dos ativos europeus. A tendência para o semestre é que o processo de imunização ganhe tração e que a reabertura das economias avance.

Bolsas na Europa e nos EUA

A expectativa de um desencadeamento mais acelerado do processo vacina, imunização e mobilidade nos países desenvolvidos manterá o suporte às bolsas globais e pode sustentar a curva de juros dos países desenvolvidos. Afinal, atividade econômica mais forte é indicação de inflação futura e, consequentemente, alguma revisão para cima nos juros.

Rendimento dos Títulos de 10 anos (%) – EUA, Alemanha, Reino Unido e França

Essa avaliação indica que o dólar, que perdeu força no segundo semestre de 2020 diante da perspectiva de retomada das atividades pós-isolamento social, pode voltar a ganhar valor. A leitura de um afrouxamento fiscal sinalizada pelo recém-eleito presidente norte-americano Joe Biden, com um novo pacote trilionário à população e um programa de infraestrutura (com apresentação prevista para fevereiro), impacta na avaliação do diferencial de crescimento ao redor do mundo.

Oráculo: como fica a taxa de câmbio?

Existem fatores que indicam espaço para a recuperação do real frente ao dólar:

  • Os fundamentos dos termos de troca estão muito favoráveis, com forte alta das commodities. Isso beneficiou o comportamento das moedas emergentes.
    Veja o gráfico com o desempenho do índice de commodities (CRB) e o DXY (índice que mensura o dólar contra uma cesta de moedas). O dólar perdeu valor em relação à cesta de moedas e as commodities ganharam força.

Índices: DXY e Commodities

  • A indicação de que melhorou o ambiente institucional para aprovação de pautas econômicas com as novas presidências no Congresso Nacional. Isso contribuiria para uma consolidação fiscal ou reestruturação do Orçamento e tiraria o prêmio implicado na nossa moeda hoje.
  • Fluxo do investidor estrangeiro no Ibovespa. No entanto, precisamos aumentar significativamente o fluxo do estrangeiro no mercado doméstico para sustentar uma depreciação do dólar e mantê-lo abaixo dos R$ 5; a melhora da confiança na economia brasileira é primordial.
  • A perspectiva de elevação da taxa Selic, encerrando 2021 pouco acima de 4%. Um juro mais próximo de outros emergentes, como África do Sul ou México, tende a reduzir a volatilidade da moeda.

Enquanto não houver progresso nas pautas econômicas essenciais para a gestão pública , esses fatores possibilitam, ao menos, não ser tão acentuado o movimento do dólar em relação ao real, no caso de apreciação, quando comparado ao que pode acontecer nas divisas que se beneficiaram ao longo do segundo semestre.

Com essa avaliação, os sinais para o curto prazo indicam que o dólar deve transitar mais para além dos R$ 5,20 do que para baixo. Com o diferencial de juros baixos (comparação entre os juros dos Estados Unidos e o do Brasil) em relação ao histórico e com o risco fiscal, os investidores mantêm um prêmio cambial ao nosso real.

Olhando para as métricas de paridade (que consideram o risco-país e os termos de troca), o dólar poderia estar entre R$ 4,75 e R$ 4,80. O real está claramente bastante depreciado, mas não está claro quando se aproximará do valor de paridade. É difícil acertar o timing da apreciação do real, pois ele está diretamente relacionado à questão política, que é imprevisível no Brasil.

Resumo do mês

Depois de dois meses muito positivos para os mercados, o ano de 2021 começou com um cenário mais desafiador.

No Brasil, o real se desvalorizou contra as principais moedas, o Ibovespa teve queda forte (-3,32%) e os títulos públicos atrelados à inflação (Tesouro IPCA ou NTN-Bs) também recuaram (com o IMA-B caindo 0,85%).

Os fundos Multimercados tiveram um mês de desempenho ruim, na média, com o IHFA (Índice de fundos Multimercados da Anbima) caindo 0,87% no mês. O CDI rendeu 0,15% no período.

No exterior, os mercados acionários tiveram movimentos distintos. As bolsas de países desenvolvidos fecharam o mês com quedas (o S&P 500 caiu 1,11% e o MSCI Europe, 1,49% no mês) enquanto os emergentes, apesar da queda no Brasil, tiveram fortes altas no geral, puxados principalmente por China (MSCI Emerging Markets subiu 2,97% em janeiro e MSCI China valorizou 7,36%).

No mercado de renda fixa internacional, em um ambiente de juros extremamente deprimidos, os investidores continuaram a buscar ativos com taxas mais altas, o que levou à valorização dos títulos da categoria high yield (+0,31%) e à queda dos papéis high grade (-1,27%) nos EUA.

Oportunidades de Investimento

Após dois meses de fortes altas, os fundos multimercados, na média, sofreram em janeiro. Apesar de a performance média dos fundos ter sido negativa, o comportamento foi bastante variado entre os diferentes tipos de estratégias, com dispersão alta de retornos. Reforçando, mais uma vez, nossa recomendação de uma carteira diversificada, com pouca correlação entre os ativos, mesmo dentro da mesma classe.

Em relação às perspectivas de mercado, estamos mais otimistas principalmente a favor da bolsa brasileira, seja via fundos de ações ou via papéis individuais, indicados pela nossa mesa de renda variável.

A exposição a ativos de inflação é uma defesa contra um cenário doméstico mais conturbado e deve ser sempre considerada. As oportunidades estão em debêntures de boas empresas, papéis de renda fixa públicos e privados e fundos que possuem como referência os índices de inflação. Além dos fundos de crédito que estão cada vez mais líquidos, com perspectivas de crescimento da categoria para 2021.

Após um período bastante negativo para a classe de fundos de renda fixa e de crédito entre o segundo semestre de 2019 e o fim de 2020, observamos um mês de forte captação líquida para este conjunto. Os dados da Anbima mostraram fluxos positivos próximos de R$ 30 bilhões no primeiro mês do ano para essa espécie de fundos.

Os Fundos de Investimentos Imobiliários representam uma classe bastante ampla de ativos e devem estar sempre no radar de quem busca investimentos a longo prazo e recebimento de dividendos. Nossa carteira recomendada destaca fundos de renda, valorização e ofertas primárias que são boas oportunidades para o mês (consulte o seu assessor para mais detalhes).

Com um cenário menos cauteloso para este ano, devido à conjunção de juros muito baixos por aqui e um cenário global favorável ao mercado acionário (uma vez que os indicadores macroeconômicos tendem a seguir em recuperação e os juros no exterior também devem continuar deprimidos), recomendamos os Fundos Internacionais como uma importante estratégia para 2021.

Investir em estratégias internacionais pode melhorar a relação risco x retorno dos portfólios, já que os preços dos ativos no exterior são impulsionados por múltiplos aspectos. A baixa correlação internacional com os ativos brasileiros pode funcionar como proteção aos eventos de choque – como diversos episódios políticos que o país enfrentou nos últimos anos. Investir fora do Brasil não implica, necessariamente, exposição cambial, como ao dólar por exemplo. Há fundos disponíveis que oferecem proteção contra a variação cambial.

Diversificar não significa abdicar de bons retornos. É possível ganhar de diversas formas, sem ficar dependente apenas do desempenho da nossa própria economia.

Por isso, mantenha contato com o seu assessor para garantir que o seu portfólio esteja balanceado. As perspectivas de longo prazo devem guiar suas decisões de investimentos, mas é fundamental entender os fatores que podem trazer volatilidade no curto prazo e afetar a sua rentabilidade.

Confira o Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=EQSrUa_KJu0&feature=youtu.be

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